Myanmar: população protesta contra golpe militar e polícia apresenta acusações contra líder Suu Kyi

Profissionais da saúde de 70 hospitais do país aderiram a uma paralisação; exército pretende manter a vencedora do Prêmio Nobel da Paz presa por mais duas semanas por ter em sua casa um rádio importado ilegalmente

  • Por Bárbara Ligero
  • 03/02/2021 11h20 - Atualizado em 03/02/2021 17h46
EFE/EPA/NARONG SANGNAKA população reagiu ao golpe militar com panelaços e bunizaços enquanto pedem a libertação de Suu Kyi

A polícia do Myanmar apresentou nesta quarta-feira, 3, acusações contra a vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi. Em prisão domiciliar desde que o exército tomou o poder do país na segunda-feira, 1, a líder da Liga Nacional pela Democracia ficará detida no mínimo mais duas semanas por violar uma lei de importação e exportação. A ativista teria em sua casa um dispositivo de comunicação por rádio importado ilegalmente e cujo uso só é permitido pelo governo ou exército. Já o presidente Win Myint, que foi deposto no dia do golpe militar, está sendo acusado de ter deslocado 220 veículos para fazer visitações com a sua esposa em um momento em que as reuniões com mais de 20 pessoas estavam proibidas devido à crise da Covid-19. As informações foram confirmadas por Kyi Toe, um dos responsáveis pela comunicação da Liga Nacional pela Democracia, através do Facebook. Estima-se que outros 400 membros e funcionários do partido estejam sendo mantidos em uma casa na capital do Myanmar, Yangon. Além disso, os militares removeram 24 ministros e deputados dos seus cargos no governo e colocaram 11 de seus aliados como substitutos.

Protestos

Até agora, o movimento de resistência ao golpe militar que mais tem chamado atenção é o dos profissionais da saúde. Médicos, enfermeiros, dentistas e outros especialistas de 70 hospitais do país aderiram nesta quarta-feira, 3, a uma paralisação que foi convocada através de uma página no Facebook intitulada “Movimento pela Desobediência Civil”. ” “Vamos protestar pacificamente com uma campanha de desobediência civil a partir de 3 de fevereiro e apelamos a outros colegas médicos para se juntarem ao protesto contra o governo”, diz a publicação. Na terça-feira, 2, a população deu os seus primeiros sinais de resistência com panelaços e buzinaços ao mesmo tempo em que muitos gritavam pedindo vida longa à “mãe” Aung San Suu Kyi. O símbolo da resistência tem sido levantar uma das mãos com os três dedos do meio em riste, como a personagem Katniss Everdeen, interpretada por Jennifer Lawrence, fazia na franquia de livros e filmes “Jogos Vorazes“. O mesmo gesto já tinha sido adotado na Tailândia pelos manifestantes que protestam contra a monarquia no país. Apesar de não ter tido nenhuma reação imediata, o Ministério da Informação do Myanmar publicou um comunicando pedindo que os cidadãos e os meios de comunicação não espalhem “boatos” nas redes sociais ou incitem “motins”.

Reação Internacional

A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu à comunidade internacional que condene o golpe militar no Myanmar e rejeite o plano dos militares de realizar novas eleições parlamentares. “É importante que unamos os nossos esforços para ajudar a garantir que os militares respeitem a vontade do povo birmanês e mantenham as normas democráticas”, afirmou a enviada da ONU no Myanmar, Christine Schraner Burgener. A Europa e os Estados Unidos já condenaram a tomada do poder pelo exército, sendo que o governo de Joe Biden deve cortar toda sua ajuda externa à nação do Sudeste Asiático. A Rússia e a China, porém,  não classificaram os acontecimentos como um golpe, limitando-se a expressar o desejo de que o Myanmar encontre uma solução para a sua crise. O Brasil, por sua vez, publicou uma nota diplomática nesta terça-feira, 2, em que não se refere aos eventos como golpe e tampouco menciona a prisão de opositores como Aung San Suu Kyi. O Itamaraty afirmou apenas que espera “um rápido retorno do país à normalidade democrática e de preservação do Estado de Direito”.

Contexto

O exército tomou o poder do Myanmar nesta segunda-feira, 1, depois de prender pelo menos 30 pessoas que atuam como políticos, ativistas, escritores e artistas. Os militares justificaram o golpe alegando que houve fraude nas eleições de novembro do ano passado, quando o partido democrático da líder Aung San Suu Kyi e do presidente Win Myint conquistaram 83% dos assentos no Parlamento. A casa iniciaria suas atividades com a nova formação nesta segunda-feira, 1.  Outras atitudes tomadas pelas Forças Armadas, que pretende ficar no governo por um ano, foram bloquear as estradas ao redor da capital, cortar as linhas de comunicação, fechar o espaço aéreo até 31 de maio e garantir o funcionamento de apenas uma emissora de televisão: a Myawaddy News, que pertence aos militares. A queda nos sistemas também está impedindo a maioria dos bancos de operarem.

Desde que conquistou a sua independência do Reino Unido em 1948, o Myanmar vivencia um caos político e social. A súbita ausência de um poder centralizado levou a um primeiro golpe militar em 1962 que foi seguido de quase 50 anos de perseguição política e abusos de poder, incluindo assassinatos, torturas, violência sexual, escravidão, trabalho infantil e tráfico humano. Foi nesse contexto de violações dos direitos humanos que a ativista Aung San Suu Kyi despontou como a principal líder da oposição e fundou a Liga Nacional pela Democracia. O partido teve a sua primeira vitória reconhecida em 2016, superando o Partido da Solidariedade e do Desenvolvimento da União, que representa os militares. Apesar de não ter assumido a presidência em si, Aung San Suu Kyi se tornou, na prática, a pessoa mais poderosa do Myanmar.