Senado italiano permite julgamento de Salvini por bloquear barco com imigrantes a bordo

Em agosto de 2019, o então ministro bloqueou o navio Open Arms durante 20 dias, com cerca de 150 imigrantes salvos no mar, como parte de sua política de portos fechados

  • Por Jovem Pan
  • 30/07/2020 16h11 - Atualizado em 30/07/2020 16h14
Agência EFEMatteo Salvini foi ministro do Interior da Itália

O Senado da Itália permitiu nesta quinta-feira (30) a abertura de um julgamento contra o líder da extrema-direita Matteo Salvini por bloquear o barco da ONG espanhola Open Arms com imigrantes a bordo. O caso aconteceu há um ano, na época em que ele estava à frente do Ministério do Interior. A decisão da Câmara Alta contou com os votos dos partidos do governo: o Movimento 5 Estrelas (M5S) e o Partido Democrata (PD), a aliança Livres e Iguais (LeU) e o Italia Viva (IV), este último com uma participação decisiva, entre outros. Especificamente, 149 senadores votaram a favor de processo, enquanto 141 ficaram contra e houve uma abstenção. “Tenho orgulho de ter defendido a Itália: faria de novo e de novo, também porque somente neste mês de julho os desembarques são seis vezes maiores aos do mesmo período do ano anterior, com a Liga no governo. Sigo em frente, com a cabeça erguida e a consciência limpa”, disse Salvini em nota.

Em agosto de 2019, o então ministro bloqueou o navio Open Arms durante 20 dias, com cerca de 150 imigrantes salvos no mar, como parte de sua política de portos fechados. Salvini se recusou desde o primeiro momento a oferecer um porto e a Open Arms, por sua vez, rejeitou a oferta das autoridades espanholas de ir aos portos de Algeciras e Mahon: a travessia seria muito longa e arriscada. Em 15 de agosto, a Justiça italiana respondeu a um apelo da ONG contra o veto de Salvini e permitiu que o navio humanitário entrasse nas águas da ilha de Lampedusa, o enclave mais ao sul do país, para se proteger do mau tempo. Finalmente, na noite de 20 de agosto, o Ministério Público permitiu que os 83 imigrantes que ainda estavam a bordo desembarcassem em Lampedusa, encerrando a odisseia.

A votação no Senado não implica sua acusação direta, mas isso dependerá de uma audiência preliminar no Tribunal de Palermo, na qual será decidido se o líder da Liga será levado a julgamento ou, pelo contrário, arquivar o caso. O Tribunal de Ministros de Palermo pede que o ex-ministro seja processado por sequestrar pessoas. O caso do navio da Open Arms não foi isolado: Salvini promoveu uma forte política de portos fechados aos navios de organizações humanitárias no Mediterrâneo central quando era ministro do Interior, cargo que deixou em setembro do ano passado.

Defesa

Durante discurso no Senado, o líder da extrema-direita rejeitou essa votação como uma questão “política” e criticou seus antigos parceiros do M5S, que no passado o defenderam em um caso semelhante e agora permitem sua acusação. O senador garantiu que “o navio pirata” se recusou a ir ao seu Estado de bandeira e acreditava que agia de acordo com todo o governo e com o primeiro-ministro Giuseppe Conte, seu “cúmplice”, e dizia que seu dever “sagrado” era defender as fronteiras da “invasão”. Salvini terminou agradecendo àqueles que permitem seu julgamento: “Eles me dão um presente, irei com a cabeça erguida e as costas retas”, alertou, sendo ovacionado em seguida.

O político sempre defendeu que suas ações eram compartilhadas por todo o governo. No entanto, a senadora do M5S, Elvira Lucia Evangelista, lembrou-lhe que o próprio Conte o pressionou para que os mais vulneráveis e menores de idade pudessem desembarcar. “Era uma política pessoal de Salvini”, concluiu. O ex-ministro enfrenta outro processo por um caso semelhante, devido ao bloqueio, em julho de 2019, de um navio da Guarda Costeira italiana com 131 imigrantes a bordo, e a audiência para decidir se deve abrir o processo deve acontecer em outubro.

*Com EFE