Uma ou duas doses? Com avanço da variante Delta, especialistas indicam reforço para a vacina da Janssen

Farmacêutica afirma que o imunizante neutraliza a cepa indiana com uma única aplicação; no entanto, comunidade médica internacional discute a necessidade de segunda dose combinada com outra marca

  • Por Caroline Hardt
  • 04/07/2021 08h00
EFE/EPA/SANDER KONINGA Janssen informou que a vacina desenvolvida pelo laboratório neutraliza a cepa indiana com uma única aplicação

Em meio às discussões sobre a terceira onda da pandemia e o surgimento de novas cepas do coronavírus, especialistas começam a analisar, na prática, a eficácia das vacinas contra a Covid-19, bem como os possíveis efeitos colaterais. Nesse contexto, parte da comunidade médica internacional debate o modelo de aplicação da vacina da Janssen, que pertence ao grupo Johnson & Johnson. Os profissionais da saúde questionam a imunização criada a partir da dosagem única e propõem reforço vacinal com a combinação de uma segunda dose de outro imunizante. Essa discussão sobre a eficácia da vacina “no mundo real” surge, especialmente, por causa do avanço da variante Delta, também conhecida como variante indiana, que conta com mutações na proteína “S” do vírus e coloca em risco a capacidade de proteção dos imunizantes, explica a imunologista Dra. Lorena Castro. “As variantes de preocupação fazem alteração justamente nessa proteína, que liga o vírus com as nossas células. As vacinas foram desenvolvidas para não deixar que o vírus entre e se multiplique. Só que, com as novas variantes, as vacinas feitas com a proteína spike perderam a eficácia porque o vírus começou a encontrar maneiras de burlar o sistema imunológico.”

Nesta quinta-feira, 1º, a Janssen informou que a vacina desenvolvida pelo laboratório neutraliza a cepa indiana com uma única aplicação. No mesmo dia, a chefe do Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul, Glenda Grey, anunciou que estudo feito no país também comprova a eficácia do composto contra a variante Delta. “Vemos uma durabilidade surpreendente na resposta imune de uma única dose por até oito meses”, afirmou. Apesar dos resultados positivos, médicos continuam defendendo a utilização de um reforço. Entre os apoiadores da proposta está a virologista Angela Rasmussen, da Universidade de Saskatchewan, no Canadá. Nas redes sociais, a pesquisadora chegou a afirmar que foi vacinada com o imunizante da Janssen em abril e recebeu uma dose da Pfizer em junho. O motivo para a escolha da vacina usada como reforço, além da disponibilidade no país, seria a metodologia diferente. Por ser produzida a partir do RNA mensageiro, produto da Pfizer completaria corretamente o esquema de imunização. Embora ainda não existam recomendações da farmacêutica a respeito do assunto, a especialista afirma que “é provável que dê certo, considerando que os reforços funcionam para quase todas as outras vacinas”. E indica o reforço vacinal: “Não podemos descartar cenários em que ele possa ser benéfico, especialmente em lugares onde a comunidade não está totalmente vacinada”, disse, em menção aos resultados do estudo.

Outra especialista que defende a adoção de uma dose extra após a imunização com a vacina da Janssen é a infectologista Céline Gounder, professora na Universidade de Nova York. Assim como Angela Rasmussen, a médica afirma que, considerando o avanço da variante Delta, recomendaria uma segunda aplicação com vacinas de RNA mensageiro (como a Pfizer e a Moderna) para idosos, imunossuprimidos e pessoas com comorbidades como diabetes ou doenças cardiovasculares. A grande preocupação, segundo a especialista, é com o avanço da cepa originária da Índia em locais como os Estados Unidos e o Reino Unido. Mais infecciosa, a mutação pode “escapar da resposta imunológica às variantes mais antigas”, aumentando os casos de reinfecção e de transmissão da doença por indivíduos já imunizados. “As vacinas Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson permanecem eficazes na prevenção de doenças graves e morte pela variante Delta, mas vemos queda significativa na eficácia geral com a vacina J&J contra a variante Delta”, explicou a infectologista.

Eficácia x reforço vacinal

Com o aumento das discussões e análise sobre a necessidade de uma segunda aplicação do imunizante ou do uso combinado com outras vacinas, surge a dúvida: a vacina da Janssen é eficaz contra a Covid-19 e as novas mutações do coronavírus? É preciso um reforço com outro imunizante? Segundo Lorena Castro, coordenadora da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia, o composto da Johnson & Johnson é eficaz, mas tem seu resultado reduzido frente à variante Delta. A médica explica que, desde o início, o anúncio de dosagem única da Janssen causou “estranheza” em parte da comunidade médica. “Apesar de, com uma dose, ela conferir uma proteção e eficácia de 66%, a gente sabe que a estimulação antigênica precisa de um segundo contato com o antígeno”, pontua. Segundo a imunologista, a discussão sobre o tema é válida e uma possível mudança no esquema vacinal seria normal, considerando o curto período para produção das vacinas.

“Vacina é um vai e vem porque vemos muitas variáveis. Primeiro, a situação epidemiológica da doença; o indivíduo, cada um é cada um, e há pessoas que não vão ter a mesma resposta na produção de anticorpos; e a própria vacina mesmo. A gente vai ver qual o esquema ideal, se é misturar, se é uma dose só, se vai precisar fazer todo ano… As vacinas mudam sempre com conhecimento adquirido”, pontua. Dessa forma, ela explica que a indicação para segunda ou terceira dose, aplicação anual e até combinações entre as vacinas são esperadas. “Utilizar uma vacina de outra plataforma, fazer um reforço, já é parte de muitos estudos que estão saindo e se mostrando eficazes. Os resultados são promissores, [mostram que a segunda dose] aumenta a eficácia. Vejo com bons olhos usar uma vacina de outra plataforma como um reforço da Janssen, aumenta a resposta.”

O que muda para o Brasil?

Considerando que o país recebeu apenas 3 milhões de doses da vacina da Janssen e a mudança no esquema vacinal ainda não é indicada pela farmacêutica, o Brasil não deve sofrer muitas mudanças. No entanto, Lorena lembra que, se confirmado o reforço, o país deverá buscar a aquisição de novos lotes do composto e fazer reservas para a segunda dose, o que pode impactar o cronograma de vacinação. Para a médica, outro destaque é que a mudança pode também descredibilizar a vacina. “As pessoas têm que ter consciência que são vacinas novas, que estão sendo testados na vida real a eficácia, a melhor dosagem e o intervalo ideal. Isso não empobrece ou invalida nenhuma das vacinas. É um mecanismo de padronização normal com as vacinas, que antes eram liberadas em oito anos. É melhor mudar no caminho ou esperar oito anos? A gente não pode esperar oito anos. Todas são boas, seguras e eficazes. A melhor é a que tem na hora”, concluiu.