Após bate-boca, CPI da Covid-19 encerra sessão e decide convocar Barros para novo depoimento

Líder do governo foi convidado para explicar sua relação com a compra de vacinas da Covaxin, se disse vítima de ‘narrativas’ e atacou os trabalhos da comissão

  • Por Jovem Pan
  • 12/08/2021 16h46 - Atualizado em 12/08/2021 17h08
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado Líder do governo na Câmara, Ricardo Barros depôs à CPI da Covid-19 nesta quinta-feira, 12

Depois de uma sessão bastante tumultuada, com duas interrupções causadas por bate-boca entre governistas e a cúpula da CPI da Covid-19, o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), encerrou a oitiva desta quinta-feira, 12, e decidiu convocar o líder do governo do presidente Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), para um novo depoimento. O parlamentar do PP compareceu, a princípio, na condição de convidado, mas, agora como convocado, será obrigado a comparecer e dizer a verdade. Os senadores tinham o objetivo de esclarecer se Barros tinha algum envolvimento com o processo de compra de 20 milhões de doses da vacina Covaxin – o contrato foi rescindido pelo Ministério da Saúde após denúncias de irregularidades feitas pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão, Luis Ricardo, chefe de Importação da pasta.

A declaração de Omar Aziz em coletiva de imprensa após o encerramento da sessão ajuda a explicar o clima que tomou conta do Senado nesta quinta-feira. Questionado sobre a diferença jurídica de um convite para uma convocação, o presidente da CPI da Covid-19 disse: “O convite é uma deferência a quem a gente respeita. A convocação é para quem a gente perde o respeito e para quem desrespeita a comissão. Agora, ele [Ricardo Barros] pode ir ao Supremo pedindo para não vir. Ele quer usar a CPI, o mecanismo de investigação, para se defender, mas não para falar a verdade. Aí há uma diferença muito grande”.

A primeira interrupção no depoimento de Ricardo Barros ocorreu depois do líder do governo afirmar que a CPI da Covid-19 busca criar “narrativas” para atacar o Palácio do Planalto. O parlamentar, expoente do Centrão, também contestou a versão de Luis Miranda. Ele e o seu irmão denunciaram irregularidades na aquisição de imunizantes indianos e se reuniram com o presidente Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, no dia 20 de março, para relatar o caso – o chefe do Executivo federal passou a ser investigado pela Polícia Federal (PF) pelo suposto crime de prevaricação. “No meu Estado, o caboclo é sábio. O cara que morre pela boca é chamado de tucanaré. Devagar com o andor que o santo é de barro. Com todo o respeito que estamos tendo pelo senhor, não criamos versão. São fatos. Aqui, o Luis Miranda disse que a pessoa a que se referia [o presidente Jair Bolsonaro] era Vossa Excelência. E digo mais: se eu fosse o líder do governo, eu não pedia, não. Eu exigia que o presidente se retratasse e falasse para todo o Brasil, nas lives, que ele nunca citou seu nome [no encontro com os irmãos]. Ele nunca disse isso”, disse Aziz a Barros.

Em um segundo momento, a sessão foi suspensa após Barros dizer que “a CPI afastou muitas empresas interessadas em vender vacinas ao Brasil”. “Espero que a CPI traga bons resultados para o Brasil, que produza efeito positivo para o Brasil, porque o negativo já produziu: afastou muitas empresas interessadas em vender vacinas ao Brasil”, disparou. Na sequência, ele afirmou que a farmacêutica chinesa CanSino desistiu de negociar 60 milhões de doses de sua vacina com o país porque os trabalhos da comissão estariam “espantando” laboratórios. Ele foi desmentido pela própria CanSino durante o seu depoimento. Ao jornal Valor Econômico, o vice-presidente de Negócios Internacionais da farmacêutica destacou que trocou sua representante por questões de compliance. A CanSino era representada no Brasil pela Belcher Farmacêutica, que tem sede em Maringá, no Paraná, reduto eleitoral do líder governista. Aos parlamentares, Barros admitiu ser amigo dos donos da Belcher e que seu advogado pessoal representou a empresa em reuniões com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para tratar da vacina.

Como os próprios senadores admitiram, a ida de Ricardo Barros à CPI da Covid-19 terá um “segundo round”, mas ainda não há definição sobre a data do novo depoimento. Sem dar detalhes, Omar Aziz também afirmou que a comissão tem outras informações sobre a atuação do líder do governo, que chefiou o Ministério da Saúde no governo Michel Temer. “Posso assegurar: não chegamos nem na metade das perguntas do senador Renan Calheiros [relator do colegiado]. Tinham muitas novidades. São perguntas e provas que temos e deixaremos para o próximo dia em que vamos ouvi-lo”, disse após o encerramento da sessão.

Vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) também explicou qual estratégia será utilizada na segunda oitiva: “Faremos uma consulta ao STF para saber qual o procedimento que pode ser adotado por uma CPI diante do flagrante fato de que o deputado comparece, assume o compromisso de dizer a verdade e infringe esse compromisso. Não demorou nem 30 minutos para que a CanSino desmentisse. Não demorou 30 minutos para que a senadora Simone Tebet dissesse que o acórdão do TCU que ele apresentava [para se defender sobre um caso envolvendo o sócio da Precisa Medicamentos] não correspondia à verdade. A CPI tem poderes de investigação própria de autoridades judiciais. Se não aceitamos que nenhum outro venha aqui e descumpra compromisso, por que vamos fazer com o senhor todo poderoso líder do governo?”.