Dilma diz que tentativas de ‘golpe’ na América Latina visaram emplacar ‘agenda neoliberal’

Ex-presidente participou de evento virtual sobre golpe no Paraguai contra Fernando Lugo, em 2012

  • Por Jovem Pan
  • 22/06/2021 23h10
CRISTIANE MATTOS/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDODilma participou de um evento virtual sobre um período eleitoral no Paraguai

A ex-presidente Dilma Rousseff alegou nesta terça-feira, 22, em um fórum virtual, que uma sucessão de “golpes” na América Latina, nos últimos anos, visava “enquadrar os países em uma agenda neoliberal”. Dilma participou do debate “Nove anos após o golpe contra o Paraguai: Democracia e Resistência na América Latina”, organizado pela coalizão de esquerda Frente Guasu, e que aconteceu no nono aniversário do julgamento político no qual Fernando Lugo foi afastado do cargo de presidente paraguaio. A ex-presidente descreveu aquele impeachment, ocorrido em 2012, como “um golpe contra Lugo no Paraguai” e argumentou que a América Latina vem sendo marcada por esta “condição” há muito tempo, embora no passado com trocas de poder por meio de ações militares e “sempre com a presença do poderoso império do norte”, em alusão aos Estados Unidos.

“É um golpe de Estado de outras formas, não tem nada de brando. Pode não ter tanques nas ruas, polícia invadindo residências. Mas os golpes parlamentares, judiciais e da mídia são golpes para emplacar o neoliberalismo”, afirmou. Dilma também criticou o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), alegando que “tem um componente neoliberal, uma aliança de interesses entre financeiros, fascistas e militares”. “O governo brasileiro, hoje, tem mais militares no aparelho do Estado do que durante toda a ditadura militar em 21 anos (1964-1985)”, destacou. Dilma também fez alusão à situação no Paraguai em 2012, quando o Senado submeteu o então presidente do país, Fernando Lugo, a um julgamento parlamentar, poucos dias após uma operação policial de despejo de terras em Curuguaty que resultou na morte de seis policiais e 11 camponeses.

O Congresso considerou Lugo culpado por mau desempenho de suas funções no cargo, e o governo acabou sob controle do então vice-presidente, o liberal Federico Franco, que ficou no poder até agosto de 2013. “Lugo foi vítima de um golpe de Estado ilegítimo, autoritário e violento”, disse a ex-presidente. Dilma lembrou que, durante aqueles dias, o Brasil estava sediando a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). No evento, junto com outros líderes do Mercosul e da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), ela tomou conhecimento do processo contra Lugo e adotou uma posição comum com outros membros desses blocos sobre o tema.

“As consequências seriam graves, porque não concordamos com a saída daquela forma, porque não tinha base constitucional e, além disso, houve um processo repentino”, lembrou. Com isso, o Paraguai ficou suspenso do Mercosul e da Unasul até 2013. Entretanto, durante esse período, os líderes dos dois blocos concordaram em evitar “decisões que poderiam afetar o povo paraguaio”, disse a ex-presidente. “Temos que fazer um exercício de memória, porque a memória é também a busca da verdade. Estamos aqui procurando a verdade dos fatos, do que aconteceu na América Latina, do que foi capaz de remover tantos presidentes”, refletiu.

*Com informações da EFE