‘Follow the money’: entenda a nova estratégia de investigação da CPI da Covid-19

Senadores querem esclarecer detalhes da compra da vacina Covaxin, fabricada pela Bharat Biotech, e se viagens de médica pró-cloroquina a Brasília foram financiadas

  • Por André Siqueira
  • 21/06/2021 16h06 - Atualizado em 21/06/2021 17h29
Jefferson Rudy/Agência SenadoNova estratégia de investigação será debatida em reunião do 'G7' da comissão, nesta segunda-feira, 21

Depois da primeira bateria de depoimentos, que resultou na divulgação da lista de 14 nomes que passarão da condição de testemunhas a investigados, a CPI da Covid-19 entra, agora, em uma nova etapa. Se a primeira metade do período de apuração concentrou esforços na elucidação da conduta do governo federal quanto ao incentivo ao uso de medicamentos comprovadamente ineficazes para o tratamento da doença e à negligência na compra de vacinas, a comissão quer esclarecer se houve favorecimento a empresas e autoridades envolvidas, sobretudo, na aquisição de imunizantes e remédios. A estratégia será discutida na reunião do G7, grupo formado pelos sete senadores independentes e de oposição, na noite desta segunda-feira, 21.

Um dos principais focos desta nova fase de investigação é o contrato para a compra da Covaxin, vacina fabricada pela farmacêutica indiana Bharat Biotech. O governo federal disponibilizou mais de R$ 1,6 bilhão para a aquisição de 20 milhões de doses do imunizante, que só foi aprovado com restrições pela Anvisa no início do mês de junho. Há, ainda, outros dois fatores: as doses são as mais caras e foram contratadas com intermédio da Precisa Medicamentos, um expediente que foge dos padrões de outras negociações feitas pela União. Na quarta-feira, 23, está marcado o depoimento de Francisco Emerson Maximiano, sócio da Precisa Medicamentos. Na quarta-feira, 16, a comissão aprovou as quebras de sigilo telefônico, telemático e fiscal do dirigente.

A compra da Covaxin também chama a atenção dos membros da CPI da Covid-19 por outro motivo. Em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF), um servidor do Ministério da Saúde disse ter sofrido uma “pressão anormal” de Alex Lial Marinho, tenente-coronel do Exército, assessor e homem de confiança do então ministro Eduardo Pazuello na pasta – o conteúdo da oitiva foi confirmado pela Jovem Pan por fontes da comissão. O funcionário da área técnica do ministério também afirma que a cúpula da Saúde pedia para que fosse encontrada uma forma de superar os entraves burocráticos para a importação e aplicação da vacina. Em razão disso, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente do colegiado, apresentou requerimento de quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático de Lial Marinho. O pedido, inclusive, foi incluído na pauta de votação da sessão desta terça-feira, 22, destinada ao depoimento do deputado federal Osmar Terra.

Nise Yamaguchi 

A CPI da Covid-19 também quer esclarecer se a médica Nise Yamaguchi pagou suas viagens para Brasília com recursos próprios ou se os deslocamentos foram financiados por alguém. Apesar de ter dito que se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro “três ou quatro vezes”, informações enviadas pela Latam à comissão e obtidas pela Jovem Pan, comprovam que a imunologista e oncologista foi até a capital federal ao menos 13 vezes entre maio de 2020 e maio de 2021. A maioria das passagens foi paga com dinheiro vivo, fato que chamou a atenção dos senadores. No total, pouco mais de R$ 16 mil foram gastos. Dados do Portal da Transparência mostram que o Ministério da Saúde arcou com os custos de uma viagem. Naquela ocasião, Yamaguchi gravou um vídeo em defesa do tratamento precoce, procedimento comprovadamente ineficaz para o tratamento do coronavírus.