Lobista admite relação com filho e ex-esposa de Bolsonaro e não esclarece vínculo com a Precisa

Em depoimento tenso e cheio de contradições, Marconny Faria foi ameaçado de prisão e confrontado com mensagens repassadas pelo MPF do Pará à CPI da Covid-19

  • Por Jovem Pan
  • 15/09/2021 16h41 - Atualizado em 15/09/2021 16h47
Roque de Sá/Agência SenadoDepoimento de Marconny foi marcado por ameaças de prisão e pergutnas sobre sua relação com o clã Bolsonaro

Em um depoimento cheio de contradições e marcado por ameaças de prisão, o lobista da Precisa Medicamentos Marconny Albernaz de Faria confirmou sua relação próxima com o filho mais novo do presidente Jair Bolsonaro, Jair Renan, a ex-esposa do mandatário do país Ana Cristina Siqueira Valle e a advogada Karina Kufa, que representa o chefe do Executivo federal, mas negou o rótulo de intermediador de negócios. Aos senadores da CPI da Covid-19, o depoente afirmou que faz apenas “pareceres e análises de viabilidade política, técnico-política”, sem explicar o que isso significa. “Por conhecer o cenário de Brasilia, tenho essa expertise”, resumiu. Quando questionado sobre as funções que desempenhava para a Precisa e como atuava junto ao Ministério da Saúde, Faria ficou calado ou disse não se lembrar dos fatos. Ao final da oitiva, o relator, Renan Calheiros (MDB-AL), incluiu Albernaz na lista de investigados pelo colegiado.

Faria admitiu que comemorou o seu aniversário em um camarote de propriedade do filho Zero Quatro em dezembro do ano passado, além de ter auxiliado Renan a abrir sua empresa, a Bolsonaro Jr Eventos e Mídia. De acordo com a sua versão, eles são amigos há aproximadamente dois anos. “Ele queria criar uma empresa de influencer, e aí eu só apresentei ele para um colega tributarista que poderia auxiliar na abertura dessa empresa”, explicou. A iniciativa foi formalizada com o apoio do advogado William Falcomer. De acordo com o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Ana Cristina Valle, ex-esposa de Bolsonaro, repassava currículos de nomes indicados por Marconny para órgãos do governo federal, como o Defensor Público da União. Um desses indicados chegou a assumir a diretoria do Instituto Evandro Chagas, no Pará, órgão vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) da Saúde, mas foi preso sob a acusação de pagamento de propina em um esquema de aproximadamente R$ 1,6 bilhão. Em razão disso, a CPI aprovou a convocação da mãe de Jair Renan.

O depoimento de Marconny Faria foi marcado por uma série de questionamentos feitos com base nas mais de 310 mil páginas de mensagens contidas em seu celular. O lobista foi alvo da Operação Hospedeiro, deflagrada em outubro de 2020 pela Controladoria-Geral da União, pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF), e seu nome aparece na trama do “passo-a-passo da fraude” a uma licitação do Ministério da Saúde para compra de testes de Covid-19, a fim de beneficiar a Precisa Medicamentos. Também estão envolvidos nos diálogos o então diretor de Logística da pasta, Roberto Ferreira Dias, o ex-diretor de um órgão da Anvisa José Ricardo Santana e Danilo Trento, diretor da Precisa.

Em um desses diálogos, Marconny Faria escreve que falaria com “um senador” para “desatar o nó” de um processo licitatório da Saúde para a compra dos testes. Questionado em mais de um momento sobre o nome do parlamentar, o lobista disse não se recordar. “Está abusando da amnésia”, ironizou o senador Jean Paul Prates (PT-RN). “O senhor é um cidadão que já subiu em carro de som, na Esplanada dos Ministérios, para gritar contra a corrupção, certo? O senhor é o mesmo cidadão que vai ter a cara de pau de chegar nessa CPI e dizer que a mensagem que o senhor mandou, documentada e periciada, na qual diz que tem contato político, indicando um senador que seria responsálvel por desatar o nó dessa contratação tão discutida aqui, e não vai dizer esse nome? Quem era o senador? São só 81. O senhor não deveria estar em cima de caminhão, porque é mais um oportunista nessa zona cinzenta de Brasília, essa interação de lobistas, autoridades que se deixam corromper e maus políticos. Está passando vergonha nacional por sua culpa, não pela minha fala. Participou de negociatas e não tem coragem de dizer o nome dos envolvidos”, disse o senador Alessandro Vieira.