Por melhor planejamento familiar, Burundi populariza métodos contraceptivos

  • Por Agencia EFE
  • 19/10/2014 06h59
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Desirée García.

Burundi, 19 out (EFE).- Está quente, e Benoît Bucum espera deitado na sala de cirurgia. Uma tela o impede ver o que acontece do outro lado: seus pelos pubianos são raspados, duas pequenas incisões são feitas e, dentro de dez minutos, ele ficará estéril para o resto da vida.

Embora a vasectomia seja uma operação ainda pouco frequente na República do Burundi, nos últimos anos o uso de métodos anticoncepcionais deixou de ser tabu graças a uma intensa conscientização desenvolvida pelo governo e pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Benoît se assustou ao saber que sua mulher estava grávida novamente, mas não esboçou reação ao sentir o bisturi deslizar por sua pele durante a cirurgia que o tornou estéril, conforme confirmou o grupo de jornalistas que acompanhou o procedimento no Hospital de Kayanza, no noroeste do país.

A chegada de seu quinto filho fez este agricultor repensar sua renda. “Tinha planejado minha vida para ter quatro filhos, de repente eu estava com mais um”, disse.

Deitado sobre a mesa de operações, com o olhar fixo no teto, o paciente parece contar os minutos que o distanciam de salvar sua família de um futuro miserável, o de precisar inventar histórias para enganar a fome de seus filhos.

A família Bucumi sobrevive com menos de um hectare, onde cultiva feijão, milho, batata doce e café destinado à venda. Desta forma, ganha cerca de 300 euros por ano, sua única fonte de renda.

O paciente ficou muito “orgulhoso” de sua façanha – a vasectomia representa apenas 1% dos métodos de planejamento familiar – porque não queria ter mais filhos. De fato, ele popularizou o uso de métodos anticoncepcionais em sua comunidade.

Implantes subcutâneos, DIU, diafragmas e injeções hormonais são algumas das técnicas contraceptivas sobre as quais se fala todos os dias nos povoados, que nos últimos anos têm divulgado uma mensagem: a saúde e o desenvolvimento do país dependem do planejamento familiar.

A superfície de cultivo, da qual 90% da população vive, foi pulverizada em minúsculas propriedades, pequenas demais para alimentar os 10 milhões de habitantes do país, número que pode dobrar em 25 anos em função de uma das mais altas taxas de natalidade do planeta (6,4 filhos por mulher).

“Este crescimento supera o econômico. Não há nenhuma exportação que nos permita sobreviver”, adverte a ministra da Saúde, Sabine Ntakarutimana, em coletiva de imprensa.

O controle voluntário da natalidade é a aposta das autoridades do Burundi, com o apoio da ONU e de doadores internacionais, para começar a recuperar o terceiro país mais pobre do mundo.

Nos últimos 14 anos, o uso de métodos anticoncepcionais quintuplicou (de 2,7% para 13,8%), as autoridades acreditam ser possível elevar este percentual para 60% em 2025, reduzindo a taxa de crescimento demográfico de 2,4% para 2%.

Caso os cálculos falhem, os políticos do Barundi cogitam restringir o número de nascimentos a partir da elaboração de leis. Eles já começaram a consultar especialistas, informou o presidente da comissão parlamentar de Assuntos Sociais, Norbert Ndihokubwayo.

Mas os contraceptivos não são apenas uma ferramenta de desenvolvimento. Também ajudam a reduzir a mortalidade materna (30%) e infantil (até 20%) e a promover a emancipação feminina. “As mulheres são cada vez mais independentes e podem tomar decisões de maneira autônoma”, reconheceu a ministra.

Nduwimana Géraldine chega de bicicleta a um descampado e abre sua pasta para exibir, diante de um grupo de homens e mulheres de diferentes religiões, uma série de exemplares de métodos anticoncepcionais, tais como dispositivos intra-uterinos e pílulas. As pessoas ouvem e aprendem a forma correta de colocar uma camisinha em demonstração feita em um pênis de madeira. A voluntária esclarece as dúvidas sobre sexo dos presentes, futuros responsáveis pela elaboração de planejamento familiar.

Enquanto isso, uma criança órfã e visivelmente desnutrida, bisbilhota o entorno do círculo, mas ninguém parece se chocar com seu estado, o que ilustra uma triste estatística: 57% das crianças menores de cinco anos do país sofrem de desnutrição crônica por falta de comida suficiente no país, explicou o diretor do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva, Juma Ndere.

“Muitos de vocês nunca dormiram sem comer, mas essa é a realidade que muitas crianças vivem no Burundi. Elas passam o dia inteiro sem comer”, disse.

Uma forma de convencer os cidadãos é dizendo a eles que usar anticoncepcionais reduzirá a pobreza de suas famílias. “Desta forma, te entenderão”, acrescentou. EFE

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