Prostituição, o destino de milhares de crianças da Guatemala rumo aos EUA

  • Por Agencia EFE
  • 15/11/2014 06h19

Natalia Sayed.

Cidade da Guatemala, 15 nov (EFE).- “O primeiro dia foi difícil. Eu tinha 11 anos, me levaram para uma casa grande e deram um quarto para mim, sozinha. Assim que me aproximei das paredes vi desenhos obscenos e frases pedindo ajuda”, relatou Noemí, uma guatemalteca que foi obrigada a se prostituir desde menina em um povoado ao sul do país.

A lembrança tão cruel e dolorosa não impediu que Noemí, que prefere não revelar o sobrenome, repetisse a história com a própria filha, de mesmo nome, à qual prostituiu aos 12 anos e vendeu dois anos depois para que fosse explorada nos Estados Unidos.

A menina, hoje uma mulher de 20 anos, foi resgatada há seis meses de um bordel em Chicago, depois que a mãe perdeu seu paradeiro, se arrependeu de vendê-la e denunciou seu desaparecimento às autoridades da Guatemala, que a encontraram no norte dos Estados Unidos.

“Apesar da ajuda profissional que recebe, não se recupera do trauma causado pelos abusos físicos e emocionais”, afirmou a delegada do Conselho Nacional de Atendimento ao Migrante da Guatemala (Conamigua), Clara Reyes, em declarações à Agência Efe.

Ao todo, 68.541 menores de idade do México e da América Central foram detidos entre outubro de 2013 e setembro de 2014 pelas autoridades dos EUA enquanto tentavam atravessar de maneira ilegal suas fronteiras, segundo a Fiscalização de Alfândegas e Proteção de Fronteiras (CBP, sigla em inglês) do país norte-americano.

O número é quase 50% superior ao período anterior e, dos 68.541, cerca de 14 mil são guatemaltecos. As autoridades não têm dados sobre quantos menores tiveram a viagem interrompida ao cair em mãos de traficantes de pessoas, exploradores sexuais ou traficantes de drogas no México.

“Nós intervimos quando recebemos uma denúncia. Sem isso, não temos conhecimento da situação”, explicou a secretária-executiva do Conamigua, Alejandra Gordillo.

Muitas vezes, a família entrega os filhos para traficantes de pessoas sem saber. Os pais enviam os menores à América do Norte depois de contratar supostos “coiotes”, dos quais possuem poucas referências, para que ajudem os filhos a atravessar a fronteira sem documentos legais.

Em alguns casos, os pais têm conhecimento do que pode acontecer e, mesmo assim, não voltam atrás, contou Reyes.

Ao chegar em Chicago aos 14 anos, Noemí trabalhou em um bar como prostituta e garçonete. Nunca recebeu pelo trabalho e ganhava apenas casa e comida. Um dos exploradores era irmão de sua mãe.

“Acompanhamos junto às autoridades dos Estados Unidos e conseguimos que a menina pudesse sair desse ambiente depois de seis anos”, disse Reyes.

Amabilia Catalán também passou por uma experiência aterrorizadora quando foi explorada pelo marido e pela sogra em Los Angeles, na Califórnia, antes de ser resgatada pelas autoridades.

Sentada próxima à sua cama em Jocotenango, um povoado a 50 quilômetros da Cidade da Guatemala, ela lembra que também sofreu abusos físicos de sua mãe.

Aos 14 anos emigrou de forma ilegal aos Estados Unidos com o namorado, de 23, para realizar o sonho de ter uma “vida melhor”, deixando aos cuidados da mãe uma pequena filha de poucos meses de idade, que nunca recuperou.

Antes de continuar com a entrevista, Amabilia pediu aos filhos de 13 e 10 anos um momento de privacidade, pois ambos desconhecem que a mãe foi vítima de exploração sexual no passado. Dos 23 aos 32 anos, a guatemalteca sofreu maus-tratos físicos e foi obrigada pelos sequestradores a se prostituir.

“Em um dia bom atendia cerca de 30 homens. Em dias ruins, cerca de nove”, lembrou.

Após incontáveis agressões, hospitalizações e uma tentativa de homicídio, seu marido foi preso e condenado nos Estados Unidos.

Amabilia teve que deixar os dois filhos nascidos nos EUA com a sogra e começou uma nova vida em outro estado, onde se casou pela segunda vez e teve outros dois filhos.

Há três anos, os quatro foram deportados à Guatemala. O segundo marido decidiu voltar aos EUA ilegalmente, mas nunca voltou a dar notícias.

“Eu quero que minha filha tenha outra vida. Por isso a levo e busco da escola. Ela vai ser melhor que eu”, se consolou a mulher em um pequeno quarto na Cidade da Guatemala, onde mora com os dois filhos. EFE

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