Tachado de traidor, ex-guerrilheiro volta ao Uruguai e vira alvo da Justiça

  • Por Agencia EFE
  • 24/08/2015 06h38

Rodrigo García.

Montevidéu, 24 ago (EFE).- Amodio Pérez, o ex-guerrilheiro uruguaio que voltou a seu país para contar sua “verdade” após 42 anos “oculto” com a identidade de Walter Correa na Espanha, não pensou que o passado buscaria uma revanche e faria com que uma viagem-relâmpago acabasse em uma tempestade judicial.

Tudo começou no último dia 7 de agosto, quando este quase octogenário, que integrou o Movimiento de Libertação Nacional Tupamaros (MLN-T), guerrilha que combateu governos constitucionais e a ditadura nas décadas de 1960 e 1970, chegou a Montevidéu pela primera vez em quatro décadas com seu nome real.

Desenvolveu-se a partir daí um roteiro digno de filmes de Hollywood: o que era para ser uma estadia de apenas dois dias para apresentar um livro com sua versão da guerrilha à qual pertenceram, entre outros, o ex-presidente José Mujica, acabou com as fronteiras do país fechadas e com o ex-guerrilheiro de tribunal em tribunal, em liberdade, mas sem poder deixar o território uruguaio.

Sua chegada, algo como a reaparição de um “fantasma” que os uruguaios conheciam, mas de quem quase não se tinha notícia desde 1973, era para muitos sinônimo de “uma peste”, pela reação dos ex-membros do MLN, para quem Amodio é conhecido como “o traidor”.

A razão de tal adjetivo é que os militares, que tomaram o poder em um golpe de Estado em 1973 e instauraram uma ditadura que se estendeu por 12 anos, lhe concederam um salvo-conduto e um passaporte com o nome de Walter Salvador Correa Barbosa para que se exilasse na Espanha em troca de colaboração.

“É a primeira oportunidade que recebo para falar sobre isso”, declarou durante a entrevista coletiva no mesmo hotel de Montevidéu no qual pouco depois recebeu uma citação judicial por ter entrado no país com o nome falso de Walter, algo que por fim não foi considerado um crime.

Porém, a isto se unem dois processos judiciais por suposta cumplicidade nom a detenção e tortura de pessoas nos tempos da ditadura cívico-militar (1973-1985) e que agora o mantêm retido no país.

“Em meu caso, me delatou na rua (…) e me pararam e me levaram preso. Fiquei na prisão por quase 14 anos e fui torturado”, disse o ex-tupamaro Carlos Martell recentemente à imprensa ao depor sobre o caso de supostos abusos e torturas contra 28 presos políticos no qual se investiga o papel de Amodio.

Segundo disse este último à Justiça, o MLN o condenou “à morte”, o que o obrigou a usar uma identidade falsa e mantê-la durante todos estes anos.

Pelo mesmo caso, nas últimas semanas prestaram depoimentos como testemunhas tanto Mujica como o também ex-tupamaro e atual ministro da Defesa, Eleuterio Fernández, ambos presos em duras condições durante o período ditatorial.

Questionado recentemente pela imprensa, Mujica disse há poucos dias que pouco se importava com Amodio e que não gosta de “dar vida aos mortos”.

Por sua vez, Jorge Marius, autor do polêmico livro “Palabra de Amodio”, afirmou em entrevista que é a editora que está pagando a hospedagem dele durante sua imprevista estadia e que esses custos saem das vendas do livro.

“Me sinto em parte responsável por isso, porque chegamos a falar a respeito na editora e nos convencemos de que poderia haver problemas por um lado, mas isto, na verdade, não tínhamos previsto. Ele tinha o voo de volta (à Espanha) para o dia seguinte”, comentou Marius sobre o ex-guerrilheiro.

No entanto, seu advogado, Andrés Ojeda, que disse à Agência Efe que em nenhum momento seu cliente esperava por esta situação, pediu o arquivamento do caso por considerar que não está provada a participação dele em nenhum crime e que, caso houvesse comprovação, estaria prescrito ou anistiado por uma lei de 1985.

“Ele não está arrependido (de ter voltado ao país). Eu diria (que) está com desgosto. A juíza lhe pede que autografe um livro. Ele assina e o que faz a juíza? Inicia o trâmite do processo”, relatou o escritor.

Atualmente espera-se a posição da procuradora do caso e que, com base nisso, a juíza tome uma decisão, que não se descarta, no caso de ser processado judicialmente, que seja a de prisão preventiva.

O protagonista desta pitoresca história, que já passou várias vezes pelos tribunais para depor e inclusive fazer acareações com antigos companheiros, em sua única apresentação à imprensa disse que aceitou a oferta dos militares quando já não lhe restava outra alternativa.

Segundo ele, em 1973 “o MLN não existia mais” e ele temia as consequências do sentimento de vingança de seus companheiros na prisão, que, de acordo com ele, em todos estes anos criaram uma história “oficial” e paralela à que ele considera real.

O ex-tupamaro, atualmente aposentado na Espanha, país cuja nacionalidade ele obteve em 1981, afirmou que não pode ficar muito tempo no Uruguai, já que deve continuar trabalhando para sobreviver, porque percebe uma pensão de 600 euros.

Enquanto isso, Celia del Bosque, sua esposa e vereadora em um município próximo a Madri, lançou na Espanha uma campanha de coleta de assinaturas pedindo sua libertação.

Por enquanto, a caixa de Pandora segue aberta, até que de novo, o passado, o presente ou o futuro, decidam fechá-la. EFE