Carta assinada até por vencedores do Nobel tenta dar um basta no ataque do governo à ciência

Grupo formado por mais de 200 cientistas de todo o mundo afirma que área científica sofre perseguição no Brasil e critica a conduta do país no combate à pandemia

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 22/04/2021 12h35 - Atualizado em 22/04/2021 12h42
Dida Sampaio/Estadão Conteúdo - 23/07/2020Jair Bolsonaro exibe caixa de cloroquina a uma das emas que vivem no Palácio do Alvorada

A ciência brasileira vem sofrendo verdadeira perseguição, o que inclui cortes orçamentários e instrumentalização com objetivos eleitorais. É o que diz uma carta assinada por mais de 200 signatários, entre eles três ganhadores do Prêmio Nobel, além de diversos cientistas e pesquisadores brasileiros e de dezenas de países. Ao mesmo tempo, a carta de alerta critica o governo brasileiro pela conduta no combate à Covid-19. O grupo afirma que a ciência vive um momento de constante ataque do Planalto, com críticas destrutivas que representam um retrocesso para o Brasil. A carta se destina a acadêmicos de diferentes continentes, em solidariedade aos seus colegas brasileiros, que parecem de mãos atadas diante de medidas completamente fora da realidade científica cultivada pelo mundo. Até segunda-feira, 19, o documento já somava mais de 200 assinaturas dos mais destacados cientistas do país e do mundo, entre eles os laureados com o Prêmio Nobel Michel Mayor (física, em 2019), Peter Ratcliff (medicina, em 2019) e Charles Rica (medicina, em 2020).

Os brasileiros que assinaram a carta ao mundo são membros de universidades e institutos científicos do país. O documento afirma que o governo federal é o responsável por informações falsas referentes à Covid-19, o que tem agravado cada vez mais a pandemia, com a rede de saúde em colapso e um número de mortes assustador. Assinala, ainda, que a gestão da crise no Brasil é catastrófica, acentuando as desigualdades existentes. A carta foi assinada por membros das universidades da França, Canadá, Marrocos, Senegal, África do Sul, Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Espanha, Itália. Grécia, Holanda, Bélgica, Mianmar, Alemanha, Argentina, Colômbia, México e Suécia. Ela critica o presidente Bolsonaro, que, em inúmeras ocasiões, tratou o coronavírus com desprezo e receitando ao povo medicamentos fantasiosos, que nada têm de efetivo contra a doença. Para ilustrar esse descaso, destaca que o Brasil já mudou o ministro da Saúde três vezes durante a pandemia.

O documento se refere, também, ao desmatamento e incêndios na floresta amazônica, onde a fiscalização não existe. Assinala que, negando a ciência, o governo não atinge somente a comunidade científica, mas a sociedade brasileira em geral, observando que essa conduta fez do Brasil uma fábrica de variantes do vírus. É difícil percorrer os jornais estrangeiros, especialmente europeus, e se deparar com notícias assim. Só são divulgadas porque, falando a verdade, parece que nada de bom acontece por aqui. Na verdade, o Brasil faz por merecer, tais são os acontecimentos que nos cercam todos os dias, com autoridades duvidosas mais preocupadas consigo mesmas do que com o país. O número de mortes pela Covid-19 é um exemplo desse cenário de horror que parece não terminar nunca, atingido todas as esferas do poder, que deixaram de merecer a confiança e o respeito de uma população acuada, que não sabe ao certo que rumo tomar.

Pior é que esse comportamento não cessa nunca, desacreditando conquistas importantes do Brasil na área da ciência. Ao destacar o tratamento dado à Covid-19, os cientistas estrangeiros que assinaram esse documento ao mundo chamam a atenção que até a vacina, que exigiu um trabalho árduo dos principais laboratórios internacionais, sofre críticas no Brasil, o que provoca dúvidas numa população assustada diante do que vê todos os dias. Não existe um palavra séria sobre a pandemia. Segundo a carta, tudo é tratado com um desleixo inaceitável. A ciência, por sua vez, é desacreditada como algo que não deve merecer atenção de ninguém. Resumindo: por aqui, a ciência e a pandemia se transformaram num desastre, tudo é sempre tratado na contramão, sem medir as consequências. Estamos assim: é o mundo contra o Brasil, e o Brasil ainda não se deu conta do que esse isolamento pode significar. Seja como for, o país faz por merecer.