Morte do menino Henry Borel mostra quão cruel este mundo pode ser

Segundo a polícia, criança era vítima de maus tratos do padrasto aos olhos complacentes da mãe; é de se lamentar que gente assim tenha direito a advogado

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 08/04/2021 12h44 - Atualizado em 08/04/2021 12h45
Érica Martin/Enquadrar/Estadão Conteúdo - 01/04/2021Policiais usam boneco na reconstituição da morte de Henry Borel; mãe e padrasto não participaram da ação que procurou revisar o que aconteceu

São tempos bárbaros. A morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos, no Rio de Janeiro, revela bem o mundo em que vivemos, onde os valores se inverteram completamente e o sentido de humanidade desapareceu. Levado para o Hospital Barra D’or  pelo padrasto e a mãe, o menino chegou morto. E os médicos que atenderam viram logo que o Henry estava muito ferido, certamente vítima de um espancamento até a morte. Um menino de 4 anos. A mãe, professora Monique Medeiros da Costa e Silva, e o padrasto, médico e vereador no Rio, Jairo Souza Santos Júnior, o Doutor Jairinho, assim, delicadamente no diminutivo, foram presos na manhã desta quinta-feira, 8, em Bangu, na zona Oeste do Rio, por estarem prejudicando as investigações — são também suspeitos do crime. Os policiais da 16ª DP, na Barra da Tijuca, prenderam o casal às 6 horas da manhã. Foram cumpridos mandados de prisão por 30 dias.

Segundo as investigações, Jairinho agrediu o garoto, por qualquer motivo, aos olhos complacentes da mãe, que nada fazia para socorrer o filho. Depois da morte do menino Henry, a mãe e o padrasto passaram a morar na cassa de uma assessora do vereador, em Bangu, que começou a ser monitorada pela polícia. A criança chegou morta no hospital devido a uma hemorragia interna e laceração hepática, provocada por ação contundente. Apresentava equimoses, hematomas, edemas e contusões. Ao mesmo tempo em que os médicos examinavam o corpo, o padrasto tentava a todo custo a liberação sem o envio para o Instituto Médico Legal, no centro do Rio. Não conseguiu diante do estado da criança, já sem vida.

O delegado Henrique Damasceno, encarregado do caso, ouviu 16 testemunhas no inquérito, entre familiares, vizinhos e empregados da família. E as suspeitas da policia foram aumentando. Ao que parece, trata-se mesmo do assassinado de uma criança de 4 anos. Os depoimentos da mãe e do padrasto estão repletos de contradições. Simplificando: pelo que disseram os dois, o menino caiu da cama e morreu. E aqueles ferimentos todos? O casal nada dizia. Os investigadores falaram com uma ex-namorada do Doutor Jairinho. A mulher contou à polícia que ela e a filha de 3 anos sofriam agressões do parlamentar. A ex-esposa do suspeito, dentista Ana Carolina, também ouvida pela polícia, relatou que era espancada por ele e até fez um boletim de ocorrência por lesão corporal. Toda a longa investigação leva ao casal: a mãe de Henry e o vereador.

O pai do menino não se conforma com o suposto comportamento da mãe, sua ex-mulher, em ver o filho sendo espancado e não fazer para salvá-lo. As investigações revelam que, no dia seguinte ao enterro, no cemitério do Murundu, no Realengo, Monique foi a uma salão de beleza no shopping Metropolitano, na Barra da Tijuca, que fica a cinco minutos do condomínio Majestic, na cidade Jardim, onde morava com o filho Henry e Doutor Jairinho. No salão de beleza, a mãe do menino morto fez escova e serviços de manicure e pedicure. Essa é a história. Uma história do tempo em que vivemos, de violência e brutalidade, de falta de consciência, em que vale a lei do mais forte, com grandes bandidos protegidos muitas vezes por uma Justiça cega, que se nega a ver os fatos como são. Bandidos protegidos por leis completamente fora da realidade dos dias atuais. Um crime bárbaro. Um menino de 4 anos espancado até a morte diante da mãe (e a mãe nada fez para socorrê-lo), conforme dizem os policiais. Diante disso, é de se lamentar que gente assim ainda tenha direito a um ou vários advogados de defesa.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.