Saída de Donald Trump da Casa Branca deixou o Brasil perdido no mundo

Após anos de bajulação cega ao ex-presidente dos Estados Unidos, governo Bolsonaro tenta reconstruir relação com Joe Biden, mas isso passa pela saída de Ernesto Araújo das Relações Exteriores

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 21/01/2021 13h41 - Atualizado em 21/01/2021 17h04
Alan Santos/PRO presidente Jair Bolsonaro sempre fez questão de mostrar seu apreço por Donald Trump, mas essa adoração pode cobrar seu preço agora

O Brasil está perdido no mundo. Isolado. Um país sozinho. Com a posse de Joe Biden, novo presidente dos Estados Unidos, essa solidão só aumentará. A não ser que o presidente Bolsonaro consiga contornar as bobagens que fez nessa paparicação incompreensível que foi dedicada a Donald Trump. Para o governo brasileiro, Trump era mais importante do que os EUA. Uma verdadeira adoração. Isolado como está, será necessário manobrar muito para fazer parte novamente do cenário internacional. Há pouco espaço para reconstruir uma relação harmoniosa. Para o ex-embaixador brasileiro em Washington, Roberto Abdenur, o Brasil está mais isolado que nunca. Uma solidão profunda. Abdenur arrisca dizer que a diplomacia brasileira não será capaz de mudar a postura que vem sendo mantida por Bolsonaro. O ex-embaixador observa que nossa política externa é baseada em fantasias, maniqueísmos, visões conspiratórias, rejeição ao multilateralismo. É uma extrema direita que nega tudo. Assim não dá para viver num universo tão complexo como de hoje. De qualquer maneira, Abdenur observa que os Estados Unidos não nos darão as costas. Biden não vai pressionar o presidente Bolsonaro agora. Vai esperar um pouco. E aí começará o desgaste. Seja como for, a economia nacional ainda é uma das maiores do mundo. 

Denise Holzhacker, professora de relações internacionais da Escola da Propaganda e Marketing de São Paulo, diz que a conduta do Itamaraty tem sido um desastre para o país. Pior é que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, só deixa incertezas por onde passa. Com esse ministro, as relações com os Estados Unidos serão bastantes complicadas. O apoio doentio dedicado sempre a Donald Trump é um obstáculo a ser vencido. Praticamente todas as posições de Araújo são questionadas com uma pressão cada vez maior. Denise diz não ter dúvida de que ele perderá seu cargo numa futura reforma ministerial. É possível até que permaneça no governo, mas não será o nome para tratar de qualquer assunto com a Casa Branca. O ministro já chegou a dizer que o surgimento do coronavírus faz parte de uma conspiração mundial. Alguém que diz algo assim não pode ser levado a sério por ninguém. Um fato que está pesando muito nesse quadro melancólico foi a demora com a qual Bolsonaro reconheceu a vitória de Joe Biden. Preferiu esperar, porque era assim que Trump queria. E o presidente do Brasil dizia abertamente que as eleições americanas foram fraudadas.

De qualquer maneira, Bolsonaro já sentiu que caberá a ele próprio procurar essa reaproximação, como se pode notar na carta que enviou a Joe Biden, desejando um excelente futuro para as relações Brasil-Estados Unidos, dizendo que as duas nações representam as maiores democracias do mundo ocidental. De acordo com o chefe de governo brasileiro, os dois povos estão unidos por estreitos laços de fraternidade e pelo firme apreço pelas liberdades fundamentais, ao Estado de Direito e à busca de prosperidade por meio da liberdade. Bolsonaro cita em sua carta o combate às organizações criminosas e ao terrorismo como um ponto em comum entre os dois países. O presidente lembrou que pessoalmente é um grande admirador dos Estados Unidos. E culpou governos anteriores por muitos equívocos que, de alguma maneira, afastaram o Brasil dos EUA, contrariando o sentimento da população e interesses comuns.

Essa carta amável pode ser um bom começo. Pode ser. Só o tempo dirá como é que as coisas vão evoluir entre os dois países. Não precisa ir muito longe neste comentário para dizer que os erros mais profundos e até dolorosos do Brasil foram cometidos (e ainda são) durante a pandemia, seguindo o guru norte-americano Donald Trump. Não terá nenhum sentido Bolsonaro criar uma espécie de força-tarefa para reconquistar as relações que tinha com os Estados Unidos sem a presença do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Ocorre que essa informação já está correndo solta em Brasília. O ministro está com a corda no pescoço. Coube a ele prejudicar as boas relações que o Brasil tinha com a China e com a Índia. Mas, entre nós, o ministro estava cumprindo ordens. As agressões de Araújo foram sempre inconsequentes e gratuitas. Mas isso tem um preço. O Brasil é um país isolado no mundo. E não vai ser fácil apagar todos os malfeitos que tem cometido deste que Bolsonaro tomou posse. Não vai ser fácil. Dizem os especialistas que o pior ainda está por vir, porque Joe Biden tem muitas reservas ao agronegócio brasileiro. Comprometido seriamente com a questão do meio ambiente, Biden promete muita pressão. Em outras palavras, afirma que agronegócio não significa desmatamento.