Tá tudo bem, mesmo quando a mente pensa o que quer

Lembre-se: pensamentos não são fatos

  • Por Bia Garbato
  • 14/08/2025 14h44 - Atualizado em 14/08/2025 15h19
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Divulgação ta tudo bem Escrevi essas três palavras num papel e fixei com durex ao lado da minha cama, no dia 24 de dezembro de 2024

Mexendo aqui nas minhas fotos, encontrei o registro de uma folha sulfite colada na parede do meu quarto, com a seguinte frase escrita à Bic: “Tá tudo bem”. Como podem imaginar, não estava tudo bem. Escrevi essas três palavras num papel e fixei com durex ao lado da minha cama, no dia 24 de dezembro de 2024. Olha que dia.

Eu podia estar em uma piscina, já que estava calor. Ou caminhando no parque com uma amiga. Quem sabe embrulhando um presente ou até comprando, de última hora, uma vela aromática pra minha tia, num shopping lotado. Mas não. Eu estava sozinha em casa, com o sol torrando lá fora, o que aumentou consideravelmente a sensação de que, enquanto eu estava miserável no quarto, as pessoas estavam brindando com chopps gelados numa calçada de bar. Pelo menos, eu estava no ar-condicionado.

Mas o que raios aconteceu, Beatriz, para você estar nessa situação lamentável na véspera de Natal? Aí que tá: nada. Não tinha acontecido na-da. Em se tratando de mim, é bom esclarecer: eu não estava em depressão. Na verdade, estava soterrada por pensamentos do tipo:

– Coisas do passado das quais me arrependi;
– Coisas que posso fazer no futuro das quais vou me arrepender (vidente);
– Coisas terríveis que podem acontecer no futuro (profeta);
– Coisas que eu estava achando de mim (burra, feia e chata);
– Coisas que eu achava que os outros estavam achando de mim (burra, feia, chata e boba).

Mas, para começo de conversa, de onde surgiram esses pensamentos, Beatriz? Mais uma boa auto-pergunta. Pra mim, geralmente, tem um gatilho. Pode ser uma notícia – às vezes besta – que, por alguma razão, me incomodou; a expectativa (e receio) dos encontros na ceia de Natal; ou apenas uma lembrança. Vamos combinar que as horas antes da “noite de Natal” são um prato cheio pra lembranças (boas e ruins). Aí a caixa de Pandora abre e os pensamentos (nos) comem soltos.

A questão é que nossa mente não diferencia pensamentos de fatos. Ou seja, quando eu penso que meu laptop pode cair no chão e me fazer perder meu segundo livro inteiro (o backup daria pau, óbvio), meu corpo sente como se essa merda monumental tivesse acontecido. Em seguida, vem uma explosão de emoções que, misturadas, viram uma só: desespero.

E eu, que estou sentada na frente do meu computador, com o arquivo do segundo livro aberto, backup feitinho na nuvem e no HD externo, começo a ter uma crise de ansiedade. E não entendo o porquê, dado que, aparentemente, está tudo certo. Pelo menos do lado de fora.

Um lance importante sobre o passado e o futuro é: eles não existem. Não existem mais ou ainda não existem, não importa. O fato é que tudo o que temos é o presente. Quando dizemos: “Boa noite, até amanhã” é um tiro no escuro. Como saber o que vai acontecer no dia seguinte? Ou no próximo minuto?

A verdade é que pensamentos não são fatos. Natal acontece apenas uma vez por ano. Quando vemos, somos nós fazendo brindes gelados na virada do ano. Mas o importante mesmo é entender que, quando não está tudo bem, tudo bem também.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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