‘Não é o mesmo Congresso’ — o diagnóstico de Dirceu sobre o que freou o governo Lula
Considerado o maior articulador do primeiro governo Lula, o ex-ministro quebrou o protocolo e admitiu o que parlamentares cochicham nos corredores do Congresso: a relação entre o Planalto e o Legislativo mudou
Considerado o maior articulador político do primeiro governo Lula, o ex-ministro José Dirceu (PT) quebrou o protocolo e admitiu o que parlamentares cochicham nos corredores do Congresso: a relação entre o Planalto e o Legislativo mudou — mas, na visão dele, a culpa não é de Lula.
“Aquele Lula não é o mesmo, nem o Congresso”, disse Dirceu em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan. “Não se pode tomar como exemplo o primeiro governo Lula, nem o segundo. O Brasil mudou. E o Congresso mudou muito.”
A frase é reveladora. Em Brasília, a reclamação é frequente entre aliados e adversários: falta ao terceiro mandato a musculatura política que Dirceu exercia nos bastidores — o jogo fino de negociação, as conversas reservadas, a gestão da base e até o futebol com churrasco no Palácio da Alvorada, ritual que transformava deputado em aliado antes mesmo de qualquer votação. O próprio ex-ministro governou com quatro partidos de direita dentro do ministério. Hoje, o cenário é outro.
Para Dirceu, no entanto, o balanço legislativo do governo é positivo. “Lula conseguiu aprovar praticamente todas as propostas dele — a reforma do IVA, o Pé de Meia, a isenção de luz, a reforma tributária, o imposto de renda até 5, 7 mil. E aprovamos pela primeira vez na história do Brasil a taxação de fundos exclusivos, fundos offshore e lucro sobre capital próprio.”
Mas foi ao falar sobre as emendas parlamentares que Dirceu apontou o nó da questão — e usou um tom que poucos petistas ousam em público. “É o principal elemento que muda a relação do Legislativo com o Executivo”, afirmou.
“Primeiro porque invade as atribuições do Executivo. Segundo porque, como nós vemos pelos inquéritos e processos, parlamentares já foram condenados por causa de emendas.”
Os números que ele cita são pesados: 93 inquéritos, três parlamentares investigados por suspeita de desvio. E uma denúncia que virou símbolo — 2,3 bilhões de reais em emendas destinadas a shows em prefeituras. “O show é mais caro que o custeio da própria prefeitura”, disse, sem esconder a indignação.
O diagnóstico de Dirceu é direto: o parlamentar brasileiro ficou poderoso demais. “O deputado, o senador hoje independe do prefeito, do governador e do presidente da República. Quatrocentos milhões em emenda por mandato — e 40, 50% das prefeituras do Brasil não têm orçamento de 200, 300, 400 milhões.”
Para ele, a solução passa por uma mudança estrutural. “É necessária uma regulação radical das emendas parlamentares. Não pode continuar como estão, porque vai acabar muito mal.”
O recado é para o Congresso. Mas também, nas entrelinhas, para o Palácio do Planalto.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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