Crime organizado e terrorismo: o Estado refém da política

Particularmente, não considero adequada a equiparação automática entre facções criminosas e organizações terroristas

  • Por Cristiano Vilela
  • 29/05/2026 10h01
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Sandro Pereira/Fotoarena/Estadão Conteúdo Pichações do "CV" (sigla da facção do Comando Vermelho), em paredões no bairro da Compensa, zona oeste, e em prédios históricos no centro de Manaus (AM), na manhã deste domingo Pichações do "CV" (sigla da facção do Comando Vermelho), em paredões no bairro da Compensa, zona oeste, e em prédios históricos no centro de Manaus (AM)

A recente decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais reacendeu um debate relevante sobre segurança pública, soberania e cooperação internacional. Embora exista uma diferença conceitual importante entre organizações criminosas e grupos terroristas, é fato que os norte-americanos vêm, há anos, ampliando a interpretação do conceito de terrorismo para alcançar facções envolvidas em narcotráfico, violência organizada e atuação transnacional.

Particularmente, não considero adequada a equiparação automática entre facções criminosas e organizações terroristas. O terrorismo, em sua definição clássica, possui motivações políticas, ideológicas ou religiosas, enquanto organizações como PCC e CV operam essencialmente sob lógica econômica e criminal. Ainda assim, independentemente da divergência conceitual, é inegável que a medida pode produzir efeitos práticos importantes, sobretudo no combate ao financiamento dessas organizações e na ampliação de mecanismos internacionais de bloqueio patrimonial.

A asfixia financeira talvez seja hoje um dos instrumentos mais eficientes no enfrentamento ao crime organizado. Facções criminosas sobreviveram e se expandiram justamente porque desenvolveram sofisticadas redes de lavagem de dinheiro, infiltração econômica e circulação internacional de recursos ilícitos. Nesse sentido, a classificação promovida pelos Estados Unidos pode facilitar sanções econômicas, ampliar o monitoramento financeiro global e dificultar operações internacionais dessas organizações.

Por outro lado, especialistas apontam um risco relevante: o eventual enfraquecimento da cooperação policial e institucional entre países. Isso porque o enquadramento como terrorismo pode alterar protocolos jurídicos, criar tensões diplomáticas e até dificultar certos mecanismos tradicionais de intercâmbio de informações. Trata-se de uma preocupação legítima, especialmente em um cenário em que o combate ao crime organizado exige cooperação internacional contínua e altamente coordenada.

O problema é que o debate rapidamente foi capturado pela polarização política brasileira. Setores da oposição tentam transformar a decisão americana em demonstração de força política interna, como se houvesse um alinhamento automático entre o governo norte-americano e determinados grupos políticos brasileiros. Evidentemente, a temática da segurança pública possui enorme apelo popular, e parte da oposição busca explorar eleitoralmente esse ambiente de insatisfação social diante do avanço do crime organizado.

Do outro lado, setores governistas recorrem a um discurso igualmente exagerado e pouco responsável, insinuando riscos de intervenção americana no Brasil ou de influência externa sobre o processo eleitoral brasileiro. Trata-se de uma narrativa fantasiosa, sem qualquer sustentação concreta. O Brasil possui instituições sólidas, soberania consolidada e autonomia política suficiente para conduzir seus próprios assuntos internos. Transformar uma medida de cooperação internacional em teoria conspiratória apenas contribui para aprofundar a histeria política e afastar o debate sério sobre segurança pública.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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