Com incertezas renovadas, mercado piora projeções para a inflação

Previsão média para o IPCA deste ano já chegou a 6,07%; pandemia, investigações da CPI, cenário externo e polarização das eleições tornam qualquer projeção mais vulnerável

  • Por Denise Campos de Toledo
  • 05/07/2021 16h10 - Atualizado em 05/07/2021 21h03
Marcello Casal Jr/Agência BrasilPIB previsto para este ano é acima de 5% e de 2,10% para 2022

Semana após semana, o mercado tem piorado as projeções para a inflação. A previsão média para o IPCA deste ano já chegou a 6,07%. A última justificativa foi o aumento da bandeira tarifária de energia, sendo que já foi sinalizado novo reajuste nos próximos meses, já que não se conta com qualquer alívio esperado dos reservatórios, que tendem a chegar ao período chuvoso em situação crítica. Sem a perspectiva de melhora na oferta de energia hídrica, as termelétricas vão continuar sendo acionadas, com custo mais elevado, que pode se manter no começo de 2022, dependendo das condições das chuvas de verão. Além disso, empresas de vários ramos de atividade continuam convivendo com falta e aumento dos preços de insumos, o que reforça o risco de mais repasses para o varejo, principalmente se confirmada a retomada mais firme da atividade neste segundo semestre.

Contava-se com o dólar mais baixo como um dos instrumentos para conter os preços, além da trajetória de alta dos juros, calibrando a demanda. Mas, embora o mercado ainda conte com a acomodação do câmbio, a política não tem colaborado muito. Depois de algumas semanas sem maiores implicações, a CPI da Covid-19 começa a influenciar mais o comportamento do mercado, com novas denúncias sobre negociatas na aquisição de vacinas e desdobramentos em investigações que envolvem o governo. Mesmo que o dólar ainda siga em patamar mais favorável, no que se refere ao controle da inflação, a volatilidade recente traz mais dúvidas. No exterior, o cenário também é de incertezas. Por mais que se confie na manutenção da atual política estimulativa do Federal Reserve, a percepção tem mudado diante das indicações de recuperação da economia e do emprego. A leitura dos indicadores tem oscilado muito.

Enfim, até pode-se confiar na eficácia da atual política de juros do Banco Central como instrumento para conter a inflação, tanto que, para 2022, a projeção para o IPCA caiu para 3,77%. Mas é sempre bom colocar na conta as eleições do próximo ano e toda a pressão que isso pode trazer para o mercado, especialmente o dólar. Em princípio, juros mais altos podem inibir as pressões de preços ao conterem a demanda, mas a luz amarela segue acesa por todos os fatores citados, que podem mexer não só com a inflação, mas também com o próprio ritmo de atividade. Pandemia, investigações da CPI, cenário externo e polarização das eleições tornam qualquer projeção mais vulnerável. O PIB previsto para este ano é acima de 5% e de 2,10% para 2022, com a inflação retornando para uma trajetória compatível com a meta que, no ano que vem, será de 3,5%. Mas são projeções que dependem de muitas variáveis e de um cenário que inspire maior confiança até para a retomada de investimentos e do emprego. Saúde, política e gestão da política econômica, que passa por um melhor encaminhamento da agenda de reformas, vão determinar as condições de expansão da economia com estabilidade.