Apesar da luz verde no cenário externo, é preciso se manter atento ao cenário econômico tupiniquim

A eleição de Biden e o início da vacinação contra a Covid-19 no Reino Unido nos dão esperanças; mas o que me preocupa é a inflação, a falta do Orçamento de 2021 e outros pontos da nossa economia

  • Por Fernanda Consorte
  • 08/12/2020 14h54 - Atualizado em 08/12/2020 15h32
EFE/EPA/BIANCA DE MARCHIO otimismo reflete no mercado financeiro brasileiro, mas ainda é preciso ficar atento a outros fatores na nossa economia

Uma breve explicação sobre esse humor ousado dos mercados financeiros no Brasil, que trouxeram a taxa de cambio para abaixo de US$/R$ 5,10 e as bolsas a mais de 110 mil pontos: os mercados locais estão surfando a onda de otimismo do cenário internacional – ponto. Não tem quase nada de local nessa historia aí. Isso é até justificável, afinal tivemos a vitória de Joe Biden, indicando uma troca de governo bastante favorável nos EUA, principal economia do mundo, que possivelmente impactará positivamente no diálogo com a segunda maior economia do mundo, a China. Além disso, devemos uma grande salva de palmas a ciência, que em menos de um ano desenvolveu a vacina do Covid-19, e o Reino Unido já começou a vacinação da população; e muito provavelmente, outros países desenvolvidos começam a fazê-los em poucas semanas. Fim. É por esses dois pontos que estamos trabalhando com esses níveis de preços no mercado. E, claro, que são motivos para comemorar, não discordo disso.

O que me incomoda é nosso cenário tupiniquim. Já tenho falado isso há semanas, meses, que as coisas não vão bem. E os dados também não tem apontado para isso. Veja, por exemplo, a divulgação do PIB na semana passada. O PIB do 3T20 cresceu 7,7% em relação ao trimestre anterior, após a forte queda no 2T20 (-9,6%) quando tivemos o auge das medidas de isolamento social. Contudo, esse número veio abaixo das expectativas dos analistas de mercado. Desta forma, a primeira impressão é que houve uma recuperação da atividade somente parcial, muito pautada ainda pela lentidão do setor de serviços, que como sempre digo, é o maior peso do PIB e, nesta crise, o foco da paralisia.
Interessante notar que, ao olhar os subsetores de serviços, se consagra o que já era observado em pesquisas mensais. Por exemplo, o comércio, que bebeu muito da fonte do auxílio emergencial, já voltou a níveis pré-crise, o mesmo com as instituições financeiras que se apropriaram da melhor condição de liquidez. Por outro lado, os outros subsetores de serviços como serviços de informação, outros serviços e serviços de saúde e educação pública estão muito aquém do patamar pré-crise – eu mesma escrevi sobre essa dicotomia num artigo nesta coluna dia 15 de setembro.

Além disso, há alguns focos que merecem luz amarela/vermelha. O primeiro seria a inflação. Ela está por aí, já acomete os reajustes de alguns contratos, as mensalidades escolares para 2021, já mordisca itens importados com intensidade. Embora quando olhamos as expectativas do mercado na pesquisa focus, os mercados esperando IPCA de 3,3% para final de 2021, algo me diz que esse número será gradualmente revisado para cima. E as taxas de juros devem acompanhar essa dança – mesmo num cenário de atividade mais branda. Outro ponto são as famigeradas contas fiscais que já falamos inúmeras vezes nesse canal. Estamos perto do recesso parlamentar e não temos LDO (orçamento para 2021), não temos decisão de postergação ou não do auxilio emergencial, e não temos sinalização de andamento nas reformas, embora haja uma expressão por parte do presidente da Câmara em aprovar algo neste ano, deixando marcas positivas em seu legado; sabemos que há muito o que ser feito.

Finalmente, temos o tema vacinas no Brasil. Há uma clara politização na questão, que me causa repulsa, mas desconsiderando minha visão pessoal e de cidadã da história, o fato é que quanto mais o Brasil for moroso na validação, tramite, distribuição de qualquer que seja a marca da vacina, mais reflexos negativos teremos em nossa economia que já está enfraquecida. E certamente, num cenário mais prolongado de pandemia no Brasil, os preços de mercado não segurariam e passariam a precificar a situação precária local. Aqui, eu acenderia uma luz vermelha ou roxa, se possível.