A Inteligência Artificial escuta, mas não guarda segredo

Falha não foi apenas do sistema; conversas íntimas e ‘terapia’ com IA vieram à tona e expuseram algo maior: até vínculos digitais, mesmo os programados, revelam a necessidade de limite, reciprocidade e consentimento

  • Por Larissa Fonseca
  • 11/08/2025 13h35
  • BlueSky
Freepik Pessoas olham para um computador no trabalho Estimativas apontam que mais de 100 milhões de pessoas usam IA generativa todos os dias

A ideia de conversar consigo mesmo, em segurança, se desfez nos últimos dias. Após críticas sobre privacidade, a OpenAI desativou o recurso que permitia que conversas privadas com o ChatGPT fossem indexadas por mecanismos de busca como o Google. Havia ali desabafos sobre saúde mental, confissões pessoais e até dados profissionais. Muita gente compartilhou dores, inseguranças e fragilidades acreditando que a máquina seria “ética”. Do outro lado, vimos também usuários desavisados da Meta AI transformarem seus “monólogos” em diários abertos. A intimidade, antes protegida por um suposto cadeado digital, foi transformada em vitrine. 

cta_logo_jp
Siga o canal da Jovem Pan News e receba as principais notícias no seu WhatsApp!

Mas como foi que a gente chegou até aqui? 

A inteligência artificial surgiu como uma alternativa para ampliar a produtividade, otimizar tarefas e aliviar a exaustão mental. Mas o humano tem emoções e sentimentos. E, sem muito esforço, transformou essa ferramenta em companhia. Em vez de apenas substituir funções operacionais, ela passou a preencher vazios emocionais. E talvez isso diga mais sobre nossa carência do que sobre sua capacidade. 

Hoje, milhões de pessoas conversam com IA diariamente. Estimativas apontam que mais de 100 milhões de pessoas usam IA generativa todos os dias — e muitas dessas interações vão além das planilhas. Capazes de elogiar e dizer que sentiram saudades, tornaram-se companheiros disponíveis 24 horas por dia. Não cancelam em cima da hora, não esquecem o que você contou ontem e sempre respondem com uma gentileza calibrada. Parece até um relacionamento ideal. Só que não é.

Segundo o MIT Media Lab, o uso intenso desses chatbots, especialmente quando envolve exposição emocional, pode estar ligado à queda no bem-estar psicológico, à solidão e até ao desenvolvimento de ansiedade social. O conforto rápido que eles oferecem cria uma relação de dependência afetiva com algo que, no fundo, apenas replica comandos. 

Quem precisa de silêncio, quando se pode ter alívio imediato? Lidar com pausas, ambiguidades e inseguranças de um vínculo real parece quase um martírio. É melhor conversar com alguém que sabe quase tudo, jamais vai estar de mau humor ou te fazer uma crítica reflexiva, não é? 

Mas que tipo de vínculo é esse? Quase como em um casamento, essa relação com a IA também molda quem somos. Não há troca de alianças, mas há reconfiguração interna: a neuroplasticidade do cérebro adapta o “eu” ao modo como essa máquina responde. E esse novo “eu” será levado às relações reais, mesmo que não receba nenhum like

Vivemos hoje uma dependência do outro para confirmar nosso valor. Mas e se o único outro for uma máquina? O paradoxo: o afeto está sempre disponível, mas nunca garante pertencimento. Se o reconhecimento humano não vier, o vínculo simulado perde o sentido. 

A IA não rejeita porque não escolhe. E o que não escolhe, não se compromete. Quando a transformamos em confidente emocional, abrimos mão do exercício relacional. Perdemos a prática do diálogo que nos transforma. Afinal, vínculos reais exigem escuta ativa, disposição para a diferença e, acima de tudo, humanidade. Mais do que uma crítica à tecnologia, o alerta aqui é sobre a maneira como a usamos. A IA não precisa ser vilã. 

O desejo pela vida, aquele que pulsa entre a curiosidade e a entrega, não se alimenta só de respostas. Precisa de um olhar. Um silêncio cheio de sentido. Uma escuta de verdade. Porque, no fim, não é sobre ter com quem falar. É sobre confiar que alguém está, de fato, escutando.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

  • BlueSky

Comentários

Conteúdo para assinantes. Assine JP Premium.