Agonorexia? O novo distúrbio causado pelo uso de canetas emagrecedoras
O uso estético, contínuo, quase competitivo, de canetas como Ozempic e a própria tirzepatida
Nesta semana, Urupês, uma cidade do interior de São Paulo anunciou que vai oferecer Mounjaro pelo SUS para tratamento da obesidade. A iniciativa é relevante e pode contribuir à saúde pública prevenindo doenças decorrentes da obesidade.
Mas fora do critério médico, cresce outro movimento. O uso estético, contínuo, quase competitivo, de canetas como Ozempic e a própria tirzepatida. Não para tratar obesidade grave, mas para perder mais cinco quilos. Ou para não recuperar dois.
Um novo nome surge: agonorexia.
O termo não está no manual da American Psychiatric Association. Mas, nos bastidores silenciosos das redes sociais, cresce outro fenômeno. Conversas discretas, relatos sussurrados sobre doses.
Antes era a dieta da lua. A sopa restritiva. O jejum que fazia o corpo tremer de madrugada. Agora é a farmacologia elegante, com promessa de controle absoluto do apetite.
E quais são os efeitos que se aceita como preço?
Crises de hipoglicemia que deixam a visão turva e a mão gelada.
Dores de estômago intensas.
A sensação de um elefante parado no abdômen mesmo após ter comido, seis horas antes, apenas uma folha de alface.
Dois dias com a impressão de que não há movimento algum da digestão.
Dores difusas no corpo.
Uma falta de energia quase constrangedora.
E depois de um pequeno pedaço de açúcar, um cansaço ainda maior, como se o organismo estivesse pedindo desculpas por ter recebido combustível.
Mas a resposta costuma ser simples. Está funcionando.
Funcionar virou sinônimo de suportar.
Com o tempo, a aparência começa a contar a história. Ombros levemente envergados para frente, como se o corpo estivesse sempre economizando energia. A pele perde viço, fica mais flácida, mais leve, quase molinha ao toque. O rosto assume aquele aspecto encovado que a internet apelidou de “Ozempic face”, com perda de volume nas bochechas e sulcos mais marcados ao redor da boca. A roupa está larga. O semblante nem sempre transmite vitalidade.
No início, é medo.
Medo de engordar.
Medo de perder controle.
Medo de sentir a saia favorita apertar.
A calça jeans larga não incomoda. Ao contrário, traz sensação de dever cumprido. Ela não é parâmetro para o inchaço que pode surgir de um dia para o outro. O termômetro emocional é a peça justa. Se aperta levemente, o alerta interno dispara.
E então vem a solução rápida. Uma nova aplicação. Em cinco dias, a ansiedade diminui. O desconforto emocional é anestesiado. O sofrimento fica concentrado no corpo.
Mas aqui entra uma camada mais profunda.
Não é apenas medo. Não é apenas dependência química. É uma reorganização da identidade.
Quando o peso vira eixo central de valor pessoal, o corpo deixa de ser morada e passa a ser projeto. A aplicação não controla apenas o apetite. Controla a narrativa interna. Controla a sensação de ser suficiente.
Surge uma dependência da versão idealizada de si mesma. Não é só a caneta que acalma. É a promessa de pertencimento. É a imagem que parece mais aceitável. É o alívio de não se sentir inadequada.
E o corpo participa dessa equação. A pele pode estar mais leve na barriga, um pouco sobrando. O número pode ter caído. Mas se a identidade passou a depender desse número, qualquer oscilação vira ameaça existencial.
O físico e o emocional deixam de ser separados. A náusea não é apenas gástrica. É também simbólica. A fraqueza não é só muscular. É a fragilidade de uma autoestima que se sustenta em milímetros de tecido.
Não é uma escolha entre sofrer fisicamente ou sofrer emocionalmente. É um ciclo onde um alimenta o outro.
E talvez a pergunta mais desconfortável seja esta:
Quando você emagrece para se reconhecer, mas precisa repetir o processo para continuar se sentindo suficiente, será que está buscando saúde?
Ou está tentando garantir identidade através da dor?
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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