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Luca Bassani

Rússia sinaliza positivamente ao cessar-fogo, mas apresenta condições

Após a confirmação da delegação ucraniana na Arábia Saudita para pausa nas hostilidades, russos se manifestam pela primeira vez de forma positiva, mas demandas específicas podem atrasar o processo de paz

Luca Bassani

Uma mulher caminha em frente a um grafite que retrata soldados russos, criado pelo artista de rua russo Ivan Pimkin em apoio às Forças Armadas da Rússia, na cidade de Pavlovsky Posad, região de Moscou
Graffiti in support of the Russian Armed Forces in Moscow region MAXIM SHIPENKOV/EFE/EPA

As últimas semanas foram extremamente intensas no cenário de negociações em busca de um desfecho diplomático para a Guerra na Ucrânia. Desde a quebra completa de protocolos na discussão do Salão Oval, até as reuniões na Arábia Saudita, muito mudou em pouco tempo, mas para todos os efeitos, apenas a Rússia ainda não tinha se pronunciado. Após visitar a região de Kursk, invadida pelo exército de Kiev em julho de 2024, o presidente Vladimir Putin, encontrou seu aliado de longa data, o autocrata bielorrusso Alexander Lukashenko, e respondeu alguns questionamentos da imprensa. A possibilidade de se assinar um cessar-fogo foi o tema principal, e Putin respondeu de maneira pragmática, dizendo receber positivamente a proposta, mas ressaltando que muitos detalhes precisam ser discutidos mais profundamente com os americanos.

As demandas colocadas por Moscou são muitas e seguem cirurgicamente a conquista de todos os objetivos revisados desta guerra. A Rússia exige a manutenção de todos os territórios conquistados nos quatro oblasts ao sudeste da Ucrânia, Donetsk, Luhansk, Zaporizhia e Kherson. A problemática, todavia, passa pela falha em se conquistar 100% de todos esses territórios pela via militar. Dos quatro territórios citados acima, apenas Luhansk é controlado completamente pelos russos. Todos os demais são controlados ainda de 25-30% pelas tropas ucranianas, incluindo muitas das cidades mais populosas e industriais das respectivas regiões. Ao demandar no papel o que não alcançou no campo de batalha, Moscou dificulta a criação de qualquer consenso acerca da nova configuração territorial da Ucrânia.

Considerando ainda as fronteiras, os ucranianos que invadiram o oblast russo de Kursk, controlam cerca de 200 km², concedendo a Kiev certo poder de barganha em uma mesa de negociação. O presidente Putin sabe muito bem que qualquer vantagem nas mãos dos ucranianos, no aspecto territorial, pode colocar em risco o seu sucesso de dominar formalmente todos os oblasts que deseja. Neste contexto, analistas militares europeus apontam que, Putin joga por mais tempo, enquanto suas tropas recuperam toda a região de Kursk e impossibilitam Zelensky de apresentar qualquer demanda territorial factível.

Outro ponto inegociável para os russos é a desistência definitiva da entrada ucraniana na Otan, dizendo que essa questão foi crucial para o início da guerra e será fundamental para seu desfecho. Considerando que a Otan, composta atualmente por 32 membros, necessita de uma aprovação unânime de novas nações agremiadas, tudo indica que a mudança ideológica dos Estados Unidos automaticamente anularia qualquer chance de Kiev fazer parte da aliança militar ocidental. Para os russos, a resolução deste problema se deu muito mais pela escolha dos norte-americanos, ao eleger Trump, do que pelo seu poder de dissuasão militar com a invasão da Ucrânia. Nestes últimos dois meses, a maior vantagem geopolítica e militar dada a Moscou não parte das estratégias de seus generais ou da bravura de seus soldados, mas das decisões e falas provenientes da Casa Branca.

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A Rússia também questiona a efetividade e a necessidade de um cessar-fogo de apenas 30 dias, argumentando que, neste período, pouco seria resolvido, e a possibilidade de rearmamento do exército ucraniano é grande. Ao longo da história militar recente, é costumeiro que acordos de cessar-fogo tenham uma duração limitada inicialmente para não apenas testar a boa-fé dos dois beligerantes, mas também para poder encaminhar negociações mais robustas e complexas durante um período de paz. Ao exigir o fim imediato, definitivo e incondicional da guerra em seus próprios termos, a Rússia propõe uma rendição informal da Ucrânia, e não um cessar-fogo aos moldes do que conhecemos. Tudo indica que as próximas semanas serão cruciais no mundo militar e diplomático, para que se possa vislumbrar um desfecho realizável e concreto para a guerra no Leste Europeu.

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