É justo que quem escolheu não se vacinar tenha prioridade no tratamento contra a Covid-19?

Mesmo onde os tratamentos já estão aprovados, eles ainda são escassos; uma quantidade maior de medicamentos ainda deve demorar e certamente vai chegar aos países de forma tão desigual quanto a vacina

  • Por Mônica Magalhães
  • 13/02/2022 08h00
Cadu Rolim/Estadão Conteúdo cápsula de remédio escrito Covid-19 Anvisa já se reuniu com a Pfizer para começar o processo de avaliação da droga Paxlovid

Conforme terminam as mais recentes ondas da variante Ômicron, que é menos severa do que as cepas anteriores da Covid, Estados Unidos, Reino Unido, e outros países europeus estão eliminando ou flexibilizando regras quanto ao uso de máscaras e deixando de exigir testes negativos de viajantes vacinados. Se a onda atual passar e o adiamento do carnaval realmente “pegar”, também poderemos ver mais flexibilização por aqui. A vacinação teve um papel essencial nesse progresso. É desanimador, portanto, ver protestos justamente contra as exigências de vacina, como os que aconteceram nos últimos dias no Canadá. Entre todas as restrições e mudanças de rotina exigidas pela pandemia, tomar vacinas periodicamente é a que menos restringe as liberdades da vida diária. Uma injeção e pronto, pelo menos por alguns meses estamos mais protegidos. 

Outra boa notícia é que novos tratamentos contra a Covid-19 estão começando a ser aprovados. A Anvisa já se reuniu com a Pfizer para começar o processo de avaliação da droga Paxlovid, e outros medicamentos também estão prestes a ser analisados. É mais um passo na direção do controle da pandemia, e se não da volta à normalidade em que vivíamos até 2019, pelo menos no caminho de uma nova normalidade em que ainda teremos de ter precauções para proteger tanto os mais vulneráveis quanto o sistema de saúde. No entanto, mesmo onde os novos tratamentos já estão aprovados e sendo receitados, eles ainda são escassos e, portanto, precisam ser racionados, guardados apenas para aqueles com maior risco de evoluir para um quadro grave. Uma quantidade maior de medicamentos ainda deve demorar, e com certeza vai chegar aos países de forma tão desigual quanto a vacina (mundialmente, mal passamos dos 50% de pessoas com vacinação de 1 ou 2 doses completas). 

Nesse meio tempo, internamente, os países vão voltar a viver dilemas éticos parecidos com os discutidos no início das campanhas de vacinação, para decidir quem tem prioridade. Ante a polarização em torno da vacina, cria-se uma discussão política em cima de uma discussão de saúde pública: quem escolheu não se vacinar, apesar de ter tido a oportunidade, está agora sob maior risco de ter Covid grave, caso seja infectado. Priorizar com base no risco, portanto, os coloca no começo da fila. Entre os que se vacinaram, previsivelmente alguns não vão ficar felizes com isso. Pode-se criar então uma nova polarização: quem não quer se vacinar acha ainda mais desnecessário, uma vez que um tratamento existe. Mas os Estados que quiserem incentivar ou obrigar a vacinação, terão sempre a tentação de usar o tratamento como incentivo, colocando quem não se vacinar no fim da fila. É possível que uma medida assim até funcione, mas, se funcionar, acabamos na pior situação, eticamente falando: quem não queria se vacinar, mas tinha a oportunidade, se vacina. Quem não tem acesso, fica para trás.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.