Acordo Mercosul-União Europeia: oportunidades e riscos para o ESG

Entrada em vigor do tratado amplia acesso ao mercado europeu, mas decisões recentes expõem limites e desafios da agenda ambiental

  • Por Patrícia Costa
  • 04/05/2026 17h02
  • BlueSky
União Europeia / Mercosul o acordo Mercosul–UE o acordo Mercosul–UE

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia entra em vigor e reposiciona o Brasil no comércio internacional. A promessa é redução de tarifas, ampliação de mercado e ganho de competitividade. Mas, além da economia, o ESG também deve ser impactado.

A União Europeia estabeleceu um novo padrão global ao exigir que produtos importados comprovem que não estão associados ao desmatamento. Mas a aplicação da regra, vem sendo ajustada e postergada ao longo dos últimos anos, o que reflete a complexidade de implementação e a pressão de diferentes setores econômicos. Isso muda a lógica do comércio internacional. Não basta produzir. É preciso provar.

Para o Brasil, esse movimento traz uma vantagem estratégica. A pressão regulatória europeia acelera a modernização da cadeia produtiva. Rastreabilidade, governança e transparência deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos. Na prática, isso eleva o padrão do agro brasileiro e pode abrir espaço para produtos com maior valor agregado no mercado internacional.

Esse é o principal ganho ESG. Mas o cenário não é linear. A própria União Europeia tem flexibilizado pontos da regulação. O bloco decidiu excluir o couro do escopo da lei anti desmatamento — mesmo sendo parte da cadeia pecuária — após pressão de setores industriais.

A legislação segue exigindo comprovação de origem para produtos como soja, café, carne bovina e óleo de palma, mas a retirada do couro evidencia um ponto crítico: a aplicação das regras não é uniforme. A agenda ESG europeia, embora avançada, não é imune a interesses econômicos. E isso gera um efeito direto: perda de coerência regulatória.

Quando regras ambientais admitem exceções relevantes, deixam de ser padrão universal.

Passam a ser negociáveis. Para o Brasil, isso cria um ambiente ambíguo. De um lado, há incentivo para avançar em práticas sustentáveis e melhorar posicionamento global.

De outro, há o risco de competir em um cenário onde as exigências variam conforme o setor.

Além disso, a ampliação do acesso ao mercado europeu tende a estimular setores intensivos em uso de terra, como agropecuária e mineração. Sem mecanismos robustos de controle, isso pode aumentar a pressão sobre biomas como Amazônia e Cerrado.

Ou seja: o mesmo acordo que pode impulsionar o ESG também pode tensioná-lo. A chave está na execução. Se o Brasil usar esse momento para fortalecer rastreabilidade, reduzir emissões e comunicar melhor seus diferenciais, o ganho é estrutural. Se não, o risco é permanecer como exportador de volume, sob pressão ambiental crescente.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

  • BlueSky

Comentários

Conteúdo para assinantes. Assine JP Premium.