Cabo Anselmo não vê cenário para intervenção militar: ‘Se fizer isso, a economia vai sofrer’

Líder da Revolta dos Marinheiros em 1964 participou do programa ‘Direto ao Ponto’ desta segunda-feira, 10

  • Por Jovem Pan
  • 10/05/2021 23h04 - Atualizado em 11/05/2021 07h11
Reprodução/ YoutubeCabo Anselmo participou do programa Direto ao Ponto

Na noite desta segunda-feira, 10, José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo, que foi líder da Revolta dos Marinheiros, um motim de oficiais de baixa patente da Marinha que eclodiu no golpe militar de 1964, participou do programa ‘Direto ao Ponto’ e comentou se um cenário como aquele pode voltar ao país em 2021. “Eu não vejo no mundo atual algo parecido com isso. Se você fizer, a economia vai sofrer, nós vamos sofrer. Os próprios governantes devem ter informação a que nós não temos acesso para tomar decisões [de não fazer]”, comentou. O Cabo também explicou quais as diferenças daquela época para hoje. “Em 1964 nós vivíamos num país cristão, as famílias estavam reunidas e iam às missas. Geopoliticamente, o Brasil estava em um mundo totalmente diferente. O que se discutia era Guerra Fria e bomba atômica, e a juventude tinha alguns valores/princípios, não havia tanta droga e imoralidade que acontece com toda a revolução cultural de até então. A diferença é essa. Ontem nós tínhamos um Brasil cristão que foi à rua em algumas cidades e hoje nós temos um Brasil entre agnóstico e ateu pela propaganda que teve em todas as mídias para subverter a mente das pessoas”, completou.

Questionado se as manifestações de parte dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pedindo a intervenção militar é errada, já que o próprio presidente disse defender as liberdades individuais, Anselmo apontou um problema de escolaridade. “Existem vários níveis de informação, níveis culturais ou de aproximação com essa ou aquela opinião. Se você está num grupo onde o líder defende a intervenção militar, é aquilo que o cara segue. O que eu acho é, a informação é tão dispersiva, a propaganda é tão terrível no Brasil, o que aconteceu em toda a instrução pública brasileira é tão horripilante que ninguém sabe para onde vai”, comentou. Atuante como agente duplo depois de ser preso em 1970 ao retornar de Cuba com um grupo de extrema esquerda, Anselmo contou sobre esse momento.

“Se você tem um soldado na frente de batalha, o que acontecer lá, como morrer ou viver, é circunstancial e eu sou um sobrevivente dentro desse negócio. O que eu fiz ajudando o Estado brasileiro naquela ocasião foi um dever de consciência. É uma coisa difícil, porque ninguém nunca entende. Eu estava em Cuba, foi a primeira vez que eu conheci o que era um país comunista, convivi com intelectuais e trabalhadores, eu vi o que era aquilo. Então lá no meu profundo estava consciente de que eu era um cristão e não queria aquele negócio. Eu conservei minha chance de ter um pensamento crítico. Quando eu voltei para o Brasil como prisioneiro, eu aceitei fazer o ‘enlace’ com a polícia”, disse.

Em uma ação desses seus ‘enlaces’, sua operação dupla com o Delegado Fleury terminou com a morte de sua então esposa Soledad Viedma, que fazia parte da ação que ele delatou no Recife. Questionado se se arrependia de tê-la entregado, Anselmo respondeu. “Eu a admirava [não amava]. Eu tinha uma tratativa com o Dr. Fleury nesse sentido. Quando eles fossem prender o pessoal, eles separassem a Soledad e mandassem para Cuba com a filha dela. Ele me prometeu isso. Quando eu li a notícia [das mortes] foi um dos dias mais difíceis da minha vida, não achei que fosse terminar daquela forma”, concluiu.

Confira a entrevista com Cabo Anselmo na íntegra: