‘O terrorismo perdeu o espaço que tinha há 20 anos’, diz ex-embaixador do Brasil nos EUA, Rubens Barbosa

Diplomata estava em Washington no 11 de setembro de 2001 e comentou no programa ‘Direto ao Ponto’ sobre o atentado e sobre a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão

  • Por Jovem Pan
  • 13/09/2021 23h02
Reprodução/ YoutubeRubens Barbosa esteve nos EUA de 1999 a 2001

No ‘Direto ao Ponto’ especial desta segunda-feira, 13, especialistas debateram os 20 anos dos atentados de 11 de setembro e como esse acontecimento mudou a história dos Estados Unidos e do mundo, principalmente nas relações internacionais com o Oriente Médio. Rubens Barbosa, diplomata na embaixada brasileira em Washington na época, participou da mesa de debate e contou sua experiência no fatídico dia. Ele tinha sido convidado para almoçar no Pentágono, local que também foi alvo dos terroristas. “O dia começou às 9h quando alguém me ligou para que eu ligasse a televisão porque tinha havido um acidente. Quando liguei, vi o avião se chocando e eu achei que fosse um replay, mas era o segundo. A partir daí foi um momento de preocupação com os rumores. Os embaixadores começaram a se ligar e as informações desencontradas. Diziam que havia bombas nas ruas das embaixadas, que um avião tinha caído no Pentágono e do escritório nós vimos uma fumaça subindo. Eu tinha combinado almoçar com o sub-secretário do departamento de defesa no Pentágono nesse dia”, explica.

“Na hora tentei ligar para o presidente Fernando Henrique para dar um quadro à ele sobre o que iria acontecer. Porque o impacto psicológico foi tremendo. Depois de 1h consegui falar com o presidente e, na minha avaliação, isso ia transformar a sociedade americana, como de fato aconteceu. No dia seguinte eu liguei para o sub-secretário americano pra ver se estava bem, e ele felizmente estava bem. Ele me convidou no dia 13 para ir ao Pentágono e eu fui, andei lá dentro e tinha cheiro de cinzas”, contou. Segundo Rubens, na época a população deu muito apoio para que o exército caçasse os responsáveis. “Havia uma unanimidade [sobre a intervenção no Iraque/Afeganistão]. Depois da queda do muro de Berlim, do fim do governo soviético, os EUA se tornaram a única superpotência. Eles moldaram a ‘nova ordem mundial’ e quando ocorre esse ataque, esse choque psicológico foi tão grande que o Bush chegou a usar a palavra ‘Cruzada’ contra o terrorismo e nesse momento começou uma fase que durou esses 20 anos. A fase do terrorismo”, diz o ex-embaixador.

Retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão

A chamada ‘Guerra ao Terror’ de George W. Bush perdeu força com o passar dos anos depois que documentos indicaram que parte das ações foi orquestrada com informações falsas e baseado em mentiras. No governo Obama, nos anos 2009, muitos reclamavam também da quantia financeira gasta nas invasões ao Iraque e Afeganistão e nas mortes dos soldados. A chegada de Joe Biden ao poder, no início de 2021, marcou uma virada nessa página. O presidente autorizou a saída das tropas do Afeganistão e, na visão de Rubens, muito disso se deve ao apelo da sociedade. “No discurso de Biden para a saída as tropas do Afeganistão, ele disse que era o fim da era militar para a mudança do regime”, explica.

“A sociedade norte-americana não aceita mais que soldados americanos interfiram na vida de outros países. Isso é importante porque muda a filosofia, a estratégia e muda o lugar dos EUA no mundo. Saiu a ‘Guerra ao Terror’ e o que é que vem agora com os EUA com uma outra visão de mundo? As ameaças agora são outras, os terrorismos cibernéticos, ataques aos satélites de comunicação, drogas … hoje o terrorismo perdeu o espaço que tinha há 20 anos e por isso ele [Biden] ficou a vontade para dizer ‘acabou a era da invasão militar'”, concluiu.

Confira abaixo todo o debate sobre os 20 anos do 11 de setembro: