CPI da Covid-19 recebe deputado Luis Miranda e irmão para esclarecer compra da Covaxin

Servidor relatou pressões anormais dentro do Ministério da Saúde para importação do imunizante; comissão pediu à Polícia Federal proteção aos depoentes e seus familiares

  • Por Jovem Pan
  • 25/06/2021 07h47 - Atualizado em 25/06/2021 16h50
Cleia Viana/Câmara dos DeputadosDeputado Luis Miranda procurou o presidente da Câmara, Arthur Lira, para informá-lo sobre a denúncia

A CPI da Covid-19 recebe nesta sexta-feira, 25, o deputado federal Luís Miranda e o irmão dele, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde. Em sessão marcada para as 14 horas, eles vão prestar esclarecimentos sobre a denúncia de irregularidades nas compra da Covaxin pelo governo federal. Luis Ricardo Miranda relatou pressões anormais dentro da pasta para importação do imunizante. A cúpula da CPI avalia que a Madison Biotech seja uma empresa de fachada. A companhia teria sido usada para que se tentasse receber antecipadamente US$ 45 milhões da compra da vacina indiana. A oitiva é aguardada com grande expectativa por senadores da oposição. Humberto Costa (PT) acredita que vai ser possível avançar em algumas questões em torno do caso. “Há muitas coisas que precisam ser esclarecidas e certamente não serão nem eles que vão esclarecer, mas eles vão poder trazer algumas luzes. Por que várias outras empresas que ofereceram vacinas tiveram que esperar seis meses, sete meses para que o governo assinasse o contrato e essa empresa precisou de menos de 90 dias? Por que é que o governo condicionou assinar contratos ao aprovo da Anvisa a essas vacinas e, nesse caso, o contrato foi assinado sem que essa aprovação tivesse sido efetivamente acontecido?”, questionou.

Já o senador Marcos Rogério acredita que a ocasião vai servir para confrontar versões e narrativas. Na opinião dele, a oposição está se precipitando. “A oposição comemorou cedo demais. Talvez acostumada com o que foi nos tempos do governo da esquerda, que se tinha corrupção o tempo todo, fatos, acontecimentos, escândalos o tempo todo acontecendo, talvez estejam olhando no retrovisor do tempo e querendo reproduzir agora aquilo que era uma prática comum nos tempos que governaram. Há indícios de coisas erradas, de fraudes, de corrupção? Apure. A base do governo não tem blindagem. Se há algo errado no Ministério da Saúde tem que ser apurado. Quem faz blindagem aqui em se apurar coisa errada é o G7, que não quer apurar o que está acontecendo nos Estados”, afirmou. Em entrevista ao site Jota, o presidente da Câmara dos Deputados confirmou que foi procurado por Luís Miranda, que queria informá-lo sobre a denúncia que faria. Arthur Lira disse que apenas o orientou a procurar as autoridades competentes. “Todo fato tem que ser elucidado. A minha recomendação foi clara. ‘Se o senhor tem alguma coisa que enseje dúvida ou tenha alguma ilegalidade, denuncie para ser apurado. Não para o presidente Câmara, mas para os órgãos de controle, Ministério Público, Polícia Federal que tem recursos e investigação muitos fortes em relação a isso”, ressaltou.

Nesta quinta-feira, a CPI da Covid-19 pediu à Polícia Federal proteção ao deputado Luis Miranda, ao irmão e aos familiares por causa das denúncias. Logo depois, o relator da comissão, Renan Calheiros, atacou o ministro Onyx Lorenzoni, que defendeu investigar o deputado Luis Miranda. Calheiros classificou como “bravatas” as palavras do titular da Secretaria da Presidência. “Além de uma intromissão indevida em uma investigação de um outro poder, ele comete um crime, um crime, porque é um caso clássico de coação de testemunha e de dificuldade ao avanço da investigação. Se esse senhor continuar a reincidir, nós não temos outra coisa a fazer, senhor presidente, senão requisitar a prisão dele”, afirmou. Renan Calheiros pediu ainda reforço da segurança do empresário da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiniano, que intermediou as negociações pela Covaxin.

Quem rebateu as declarações de Renan Calheiros foi o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra. “Discordo completamente das afirmações do senador Renan. Apenas ponderaria, não tem nenhuma dificuldade para que o ministro possa trazer suas explicações e a visão do governo em relação ao que se quer investigar, que é esse contrato com a Bharat Biontech. A posição dessa empresa, a Precisa, em relação a isso, sobretudo para avaliar as afirmações que o senador considera coação à testemunha e evidentemente nós queremos garantir a integridade, a segurança de todos os depoentes que possam vim aqui”, disse Bezerra, que questionou Renan Calheiros sobre a necessidade de pedir proteção ao empresário da Precisa Medicamentos. Em seguida, os dois senadores bateram boca depois que o relator fez uma citação ao caso do miliciano Adriano da Nóbrega.

Após a confusão, a CPI da Covid-19 começou a ouvir dois pesquisadores da área médica sobre a condução da pandemia. O epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, afirma que o Brasil poderia ter evitado 400 mil mortes. Para ele, o número de pessoas que já se infectaram no Brasil deve ser de 50 milhões e não de cerca de 18 milhões. Já a diretora-executiva da Anistia Internacional e coordenadora do movimento Alerta, Jurema Werneck, cita 305 mil óbitos “em excesso”. “Quando a gente fala dos 305 mil mortes em excessos, a gente está considerando inclusive que aquele número já está beneficiado pelo fato de que parte da sociedade levou a sério as recomendações, que parte da sociedade fez o que devia. Muitos de nós seguimos a recomendação de evitar a transmissão”, ressaltou. Jurema Werneck salientou que medidas como uso das máscaras devem continuar sendo adotadas, apesar da vacina. Ainda de acordo com ela, a resposta imunológica de uma população é demorada.

Questionado pelo senador Luis Carlos Heinze pela quantidade de pessoas curadas da Covid-19, o epidemiologista Pedro Hallal rebateu. “Quando o senhor fala sobre as vidas salvas, devo admitir que sempre fico com a sensação que estamos comemorando o gol do Brasil contra a Alemanha. Foi 7×1 o jogo e a gente está comemorando que 16 milhões de pessoas ficaram doentes. Não consigo entender essa lógica”, afirmou. A defesa do empresário Carlos Wizard confirmou que ele vai comparecer no Senado para prestar depoimento na próxima quarta-feira, 30. Porém, ainda não foi anunciado que dia ele chega ao Brasil. Wizard faltou ao depoimento marcado no dia 17 pois estava nos Estados Unidos acompanhando um tratamento médico na família. O empresário é suspeito de integrar o suposto gabinete paralelo da Saúde.

*Com informações do repórter Levy Guimarães