‘Órfãos’ da São Silvestre já torcem por edição da prova em 2021

Em nota, a organização do evento destaca que as corridas estão previstas para acontecer nos dias 11 de julho e 31 de dezembro

  • Por Jovem Pan
  • 31/12/2020 08h39
MARCELO GONCALVES/SIGMAPRESS/ESTADÃO CONTEÚDOPor conta da pandemia, corrida São Silvestre não acontece em 2020

Aos 73 anos com o pique de um menino e muito fôlego pra correr 15 quilômetros. É assim que o barbeiro Laerte Pereira encara, há 53 anos, a Corrida Internacional de São Silvestre. Foram inúmeros Réveillons com shorts, tênis e camiseta — essa tradição é desde os tempos em que a prova era disputada na Virada de Ano. “Muito Ano Novo correndo, de passar de 31 de dezembro para 1º de janeiro sem tomar banho, suado.” O seu Laerte não quer nem ouvir falar em sedentarismo. Ele alia os treinamentos ao trabalho na barbearia e conta que, a cada dia 31 de dezembro, a emoção é renovada pelas ruas de São Paulo. “Quando cruza a linha de chegada a emoção já engasga, não dá nem para comentar, dá a impressão que é a primeira. A emoção contamina a gente, contagia.”

Porém, 2020 frustrou as expectativas não só do seu Laerte — mas de muita gente que costuma vir dos lugares mais longínquos do Brasil e do mundo para a prova. A empresária mineira Valeska Figueiredo mora em Poços de Caldas e começou com o esporte depois que descobriu que tinha lúpus e artrite. Ela diz que a corrida ajuda a enfrentar as doenças e que estava entusiasmada e preparada para fazer sua estreia — quando viu seus planos irem por água abaixo com a suspensão desta edição devido a pandemia do coronavírus. “Eu falei: ‘Vou fechar o ano com a tão sonhada São Silvestre’, que todo ano a gente estava adiando.” Esse ano não haverá aquela ansiedade gostosa entre os milhares de corredores que aguardam a sonora buzina que dá o sinal da largada no MASP. E nem mesmo o gostinho de cruzar a linha de chegada em frente à Fundação Cásper Libero em uma sensação indescritível. Uma mistura de alegria, choro, riso e até dor. Dessa vez tudo isso dará lugar ao silêncio e distanciamento.”

Para a infectologista e professora da Unicamp Raquel Stucchi, o cancelamento devido a Covid-19 foi a decisão mais acertada. “A chance de acontece aglomeração não só entre os participantes, mas todo o trajeto, também gera uma aglomeração. Então não faz sentido ter uma atividade dessa, mesmo que seja uma atividade física.” Em nota, a organização da São Silvestre destaca novidades para as provas de 2021 que estão previstas para acontecer nos dias 11 de julho e 31 de dezembro. A programação de sua próxima edição deverá começar em breve, com a abertura das inscrições. E a nova data pode sofrer alteração de acordo com as determinações dos órgãos públicos competentes. Em caso de mudança, as inscrições presenciais para a 96ª edição continuarão válidas automaticamente para nova data a ser divulgada.

O fato é que atletas, sejam eles amadores ou de elite, estão com saudades da corrida que deixa as memórias de um ano todo pra trás e abre caminho para mais 365 dias de esperanças. O desejo é de voltar o mais breve possível a ver as imagens das faixas, cartazes, camisas dos time do coração e as fantasias — nas descidas e subidas do percurso que acabam refletindo os altos e baixos da vida. O sentimento dessas pessoas é o mesmo da Valeska, que não desanimou e não desistiu. Tanto é que até já faz planos para o ano que vem. “Retomar fortalecimento e tudo o que parei. E a São Silvestre com certeza vai ocorrer. Se tiver duas edições, vou deixar para o fim do ano. Uma experiência bacana.”

*Com informações do repórter Daniel Lian