Saída para destravar pauta de Paulo Guedes é incógnita

Relação conturbada entre ministro da Economia e presidente da Câmara dos Deputados marcou primeira metade do governo de Jair Bolsonaro

  • Por Jovem Pan
  • 01/01/2021 10h35
WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 26/11/2020Paulo Guedes e Jair Bolsonaro

A primeira metade do governo de Jair Bolsonaro foi de oscilações, vitórias e derrotas no avanço da agenda econômica no Congresso. O ano de 2019 terminou sendo resumido em uma grande pauta: a reforma da previdência. Após longa tramitação em um esforço conjunto envolvendo o Ministério da Economia, articulações políticas dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, o texto aprovado foi visto como satisfatório. Naquele momento, Alcolumbre expressou otimismo. “Os movimentos que vão acontecendo na economia ainda são lentos, mas as perspectivas são positivas para a gente poder diminuir essas desigualdades sociais e regionais com a votação de uma reforma importante para equilibrar as contas e assegurar a capacidade de investimentos de outros países no Brasil, além de dar a tranquilidade jurídica”, disse.

A virada de 2019 para 2020 foi o período de maior confiança na pauta econômica e nas reformas. Após a previdência, a prioridade traçada pelos parlamentares era clara: a reforma tributária. Também já se falava em matérias como a reforma administrativa, privatizações e a PEC do pacto federativo. A reforma tributária viria a ser discutida em uma comissão mista formada por senadores e deputados com a perspectiva de se chegar a um texto de consenso em poucos meses. O relator, deputado Agnaldo Ribeiro (PP), apostava que após mais de 30 anos de debates o projeto sairia da gaveta. “Eu tenho convicção, inclusive vocês viram a partir do pronunciamento, tanto do presidente Davi Alcolumbre quanto do presidente Rodrigo Maia, que há um compromisso do Congresso Nacional com a reforma tributária, para que possa ser aprovada ainda no primeiro semestre”, afirmou na época. Com a pandemia da Covid-19, porém, a agenda de ajuste fiscal deu lugar à expansão de gastos para combater os efeitos da doença.

No lugar das reformas, vieram o auxílio emergencial e a PEC do Orçamento de Guerra. Também neste momento, uma guerra de palavras entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi iniciada. O primeiro rompimento se deu em abril, na votação do projeto de socorro aos estados e municípios. Na visão do ministro, o deputado trabalhava para “explodir” as finanças do governo. Maia, por sua vez, dizia que as propostas do Senado e da Câmara recebiam tratamentos diferenciados, tendo desavenças estimuladas. Além disso, Maia dizia que Guedes havia proibido membros da equipe econômica de conversar com ele. Para o ministro, o presidente da Câmara agia para barrar as privatizações. “Ele tem um acordo com a esquerda, de proibir as privatizações”, disse, à época. As desavenças também apareceram na reforma tributária, já que Maia é crítico de Guedes no que diz respeito a criar um novo imposto sobre transações financeiras.

A reconciliação só foi concretizada no mês de outubro, após uma longa articulação envolvendo parlamentares e ministros. Na ocasião, o deputado chegou a pedir desculpas e assumiu os erros. “Fui indelicado e grosseiro, não é do meu feitio”, afirmou. Porém, após um breve período de calmaria, os altos e baixos continuam. Na reta final do mandato, o presidente da Câmara tem subido o tom nas críticas ao governo. Ele ainda se considera um aliado da agenda econômica de Guedes. Um dos pontos em comum é o desejo pela manutenção do teto de gastos. Porém, ele já classificou o ministro como “confuso”. Na visão de Maia, Paulo Guedes perdeu força dentro do governo. Para 2021, o governo continua com o desafio de aparar as arestas na reforma tributária, a pauta que todos concordam ser necessária, mas poucos convergem sobre como deve ser executada. A eleição para presidência da Câmara e do Senado é tida como decisiva para harmonizar a relação e retomar a pauta e enxugamento da máquina.

*Com informações do repórter Levy Guimarães