O que quase ninguém faz para evitar o câncer antes que seja tarde demais
Quando falamos em câncer, a maioria das pessoas pensa imediatamente em tratamentos como cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. Poucos se perguntam se aquele diagnóstico poderia ter sido evitado. E essa talvez seja uma das reflexões mais importantes que precisamos fazer.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026–2028. A ciência mostra que aproximadamente 30% a 50% dos casos poderiam ser prevenidos por meio da redução de fatores de risco modificáveis.
Na prática, como cirurgião oncológico, percebo que muitas pessoas ainda acreditam que prevenir o câncer significa apenas realizar exames periódicos. Esse é um equívoco comum.
Exames ajudam, mas não impedem a doença
Os exames de rastreamento, como mamografia, colonoscopia, Papanicolau para o colo do útero e, em situações específicas, tomografia de tórax com baixa dose de radiação para fumantes, têm um papel fundamental, mas não evitam o surgimento da doença. Na maioria das vezes, permitem apenas identificá-la em fases iniciais, quando as chances de cura são significativamente maiores. A prevenção, de fato, começa muito antes disso. Ela começa nas escolhas que fazemos diariamente.
O tabagismo continua sendo o principal fator de risco evitável para o câncer e está relacionado a dezenas de tipos da doença, não apenas ao câncer de pulmão. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a obesidade, o sedentarismo, a alimentação rica em alimentos ultraprocessados, carnes vermelhas e açúcares, além da exposição inadequada ao sol, também desempenham um papel importante no desenvolvimento de diversos tumores.
No consultório, outro aspecto chama a atenção: muitos pacientes acreditam que, por não apresentarem sintomas, estão saudáveis. Infelizmente, essa não é a realidade do câncer. Grande parte dos tumores cresce silenciosamente durante anos. É justamente por isso que o rastreamento é tão importante para os grupos indicados.
Prevenção é soma de decisões diárias
Ao mesmo tempo, é importante compreender que não existe uma única medida capaz de eliminar completamente o risco de câncer. O que existe é a soma de pequenas decisões tomadas ao longo da vida.
Não fumar, manter um peso saudável, praticar atividade física regularmente, consumir mais frutas, verduras e legumes, reduzir alimentos ultraprocessados, limitar o consumo de álcool, proteger-se da exposição solar excessiva e manter a vacinação em dia, especialmente contra HPV e hepatite B, são atitudes que apresentam impacto comprovado na redução da incidência de diversos tipos de câncer.
Como médico, costumo dizer aos meus pacientes que o melhor tratamento para o câncer ainda é aquele que nunca precisou ser realizado.
A medicina evoluiu de forma extraordinária nas últimas décadas. Hoje, dispomos de cirurgias cada vez mais precisas, imunoterapia, terapias-alvo e avanços que transformaram o prognóstico de muitos pacientes. Entretanto, nenhuma tecnologia é mais poderosa do que impedir que a doença se desenvolva.
A prevenção não depende apenas dos médicos, dos hospitais ou dos avanços científicos. Ela depende, principalmente, das escolhas que fazemos todos os dias.
Porque, no fim das contas, cuidar da saúde não é uma decisão que tomamos quando a doença aparece. É uma atitude que escolhemos diariamente, muito antes de qualquer diagnóstico.
Antônio Carlos Accetta – CRM: 52.71474-1 | RQE: 22449/22450
Cirurgião Oncológico