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Saúde

Por que algumas pessoas ouvem, mas não conseguem entender o que foi dito

O otorrinolaringologista Dr. Andy Vicente explica a “perda auditiva oculta” e mostra como hábitos simples podem proteger sua audição e sua saúde mental antes que o problema se agrave

Brazil Health

Conversa de casal
Conversa de casal Magnific

Você já teve a sensação de estar em uma conversa e, mesmo ouvindo que alguém está falando, não conseguir entender as palavras? Se isso acontece frequentemente quando há um pouco de barulho ao redor, como em um restaurante lotado ou em uma reunião de família, saiba que você não está sozinho – e talvez seu ouvido esteja tentando te dar um alerta muito importante sobre a sua saúde auditiva.

No consultório, recebo cada vez mais pacientes que sentem que a audição “mudou”, que o mundo parece estar mais “abafado” ou que o esforço para entender alguém é exaustivo. No entanto, ao realizarem a audiometria – aquele exame tradicional que mede o que ouvimos em uma cabine silenciosa –, o resultado vem como “normal”. Isso gera uma frustração legítima: “Se o exame diz que está tudo bem, por que eu sinto que não estou ouvindo corretamente?”.

O que estamos observando é o que chamamos de perda auditiva oculta.

O que é essa perda “invisível”?

Para tornar isso mais claro, imagine que seu sistema auditivo é como um computador de última geração, potente e sofisticado. Porém, existe um cabo que conecta o monitor ao processador que está com mau contato ou parcialmente desgastado. O som entra perfeitamente pelo seu ouvido (a parte externa funciona bem), mas a “fiação” que leva essa informação até o cérebro – o nosso nervo auditivo – sofreu pequenas lesões nas suas conexões, as chamadas sinapses.

O exame comum de audiometria mede se o som consegue entrar no ouvido, mas ele não tem a sensibilidade necessária para avaliar como essa mensagem é “traduzida” pelo nervo até o seu cérebro. É como se o som chegasse, mas a comunicação estivesse “picotada”, dificultando o entendimento, especialmente em ambientes onde existe ruído de fundo.

A “Geração Fone de Ouvido” e o risco silencioso

Não é coincidência que esse fenômeno esteja se tornando comum. Vivemos na era dos fones de ouvido sem fio, utilizados quase como uma extensão do corpo. O problema não é o dispositivo em si, mas a forma como o usamos: por horas seguidas, muitas vezes com volume acima do recomendado.

O nosso ouvido não foi projetado para receber estímulos sonoros constantes por longos períodos. Quando mantemos o volume alto, as células sensoriais do ouvido interno entram em um estado de estresse e fadiga. Isso resulta em sintomas que você talvez já tenha sentido, mas não associou à audição:

Dificuldade de entendimento social: você ouve o som, mas não distingue as palavras em locais barulhentos;

Fadiga auditiva: sabe aquele cansaço mental profundo no fim do dia? Muitas vezes, é o seu cérebro gastando o dobro de energia apenas para tentar “decifrar” o que você ouviu mal durante o dia; e

Irritabilidade: o esforço constante para manter o foco em uma conversa em um ambiente ruidoso gera um estresse desnecessário, que impacta diretamente a sua qualidade de vida.

Como proteger o futuro da sua audição

A boa notícia é que você pode começar a reverter esse cenário e proteger sua audição hoje mesmo, com atitudes simples, mas que fazem toda a diferença a longo prazo:

A regra do conforto: se você precisa aumentar o volume do seu fone ou da televisão para “abafar” o barulho da rua, da academia ou do escritório, o som já está alto demais. O áudio deve ser um complemento, nunca um isolante;

A regra dos 60/60: tente não passar de 60% do volume total do seu dispositivo. Além disso, a cada 60 minutos de uso, faça uma pausa de pelo menos 5 a 10 minutos. Deixe o seu ouvido “respirar” e descansar do estímulo constante;

Atenção aos sinais do corpo: a audição é um sentido valioso e, diferente de outras partes do corpo, ela não se recupera sozinha após uma lesão profunda. Se você percebe que está pedindo para as pessoas repetirem o que dizem com frequência ou sente que o ambiente barulhento virou um pesadelo, não espere o problema se agravar.

A saúde dos seus ouvidos é o reflexo das escolhas que você faz hoje. Tratar bem o seu cérebro e proteger sua audição é garantir que você continue participando da vida com plenitude, ouvindo as risadas, as conversas e todos os detalhes que fazem o cotidiano valer a pena.

Se você sente que algo não vai bem, não ignore. Procure um especialista. Afinal, a vida é uma sinfonia que merece ser ouvida com toda a clareza possível.

Dr. Andy Vicente – CRM 92351 / RQE 419730
Otorrinolaringologista do Hospital CEMA