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Saúde

Por que não aguentamos mais tanto barulho? A mente está cansada do excesso de estímulos?

Música alta, conversas simultâneas, trânsito, telas e notificações disputam nossa atenção ao longo do dia. O psicólogo Tonio Luna explica por que ambientes que antes pareciam agradáveis podem se tornar cansativos e quando a busca pelo silêncio funciona como uma forma de recuperação mental

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Homem tenta falar ao telefone durante festa
Homem tenta falar ao telefone durante festa Magnific

Você chega a uma festa, encontra amigos, começa a conversar e, depois de algum tempo, sente uma vontade quase física de ir embora. A música parece alta demais, acompanhar uma conversa exige esforço, outras vozes se misturam, pessoas circulam ao redor e aquilo que deveria ser diversão começa a produzir cansaço.

Isso significa que estamos ficando menos sociáveis ou simplesmente envelhecendo? Não necessariamente. Talvez parte da explicação esteja no que aconteceu antes mesmo de chegarmos à festa.

Passamos boa parte do dia expostos a estímulos que disputam nossa atenção. O celular vibra, chegam mensagens, alternamos aplicativos, respondemos e-mails, ouvimos música, acompanhamos o trânsito, conversamos e, muitas vezes, fazemos várias dessas coisas quase simultaneamente.

O cérebro consegue lidar com ambientes complexos, mas nossa capacidade de atenção não é infinita. Quando passamos horas selecionando o que merece atenção e ignorando o restante, chegamos ao fim do dia com menos disponibilidade para continuar fazendo esse trabalho.

Uma festa exige muito mais do cérebro do que parece

Imagine uma conversa em um restaurante cheio. Para entender quem está à sua frente, precisamos selecionar aquela voz e, ao mesmo tempo, tentar ignorar as conversas das mesas vizinhas, a música ambiente, os garçons passando e outros estímulos ao redor.

Esse processo de selecionar informações relevantes e inibir aquilo que não interessa exige esforço cognitivo. Quanto mais complexo o ambiente, maior pode ser essa demanda.

Em uma festa, acrescentamos ainda interação social, movimento, luz, necessidade de acompanhar diferentes conversas e decisões constantes sobre onde colocar nossa atenção.

Por isso, o mesmo ambiente pode ser agradável em um dia e insuportável em outro. Se estamos descansados e emocionalmente disponíveis, podemos tolerar e até procurar essa intensidade. Depois de uma semana de trabalho, poucas horas de sono ou um período de estresse, nossa capacidade de lidar com a mesma quantidade de estímulos pode ser diferente.

Não é necessariamente o volume da música que mudou. Mudou também a condição em que chegamos até ela.

Estamos ficando menos tolerantes?

É tentador responsabilizar apenas o celular ou as redes sociais, mas ainda não temos evidência para afirmar que a vida digital esteja tornando permanentemente o cérebro humano incapaz de tolerar ambientes estimulantes.

O que sabemos é que interrupções frequentes e alternância constante de tarefas têm um custo para a atenção. Quando desviamos o foco de uma atividade para olhar uma mensagem e depois tentamos retornar, não necessariamente retomamos imediatamente o mesmo nível de concentração.

Ao longo de um dia, essa fragmentação pode contribuir para a sensação de fadiga mental.

Há ainda enormes diferenças individuais. Algumas pessoas gostam de ambientes intensos, enquanto outras sempre preferiram lugares tranquilos. Idade, personalidade, qualidade do sono, estresse, ansiedade e o momento de vida também podem modificar nossa tolerância.

Por isso, deixar de gostar de festas barulhentas não significa automaticamente estar ficando antissocial. Nossas preferências também mudam.

Quando o silêncio começa a fazer falta

Talvez seja por isso que tanta gente passe a valorizar momentos que antes pareciam vazios: dirigir sem música, caminhar sem fones, ficar alguns minutos sem olhar o celular ou simplesmente permanecer em uma casa silenciosa.

O silêncio pode funcionar como uma redução voluntária da quantidade de informações que precisam ser processadas. Não é necessário selecionar uma voz, responder uma mensagem ou decidir para onde dirigir a atenção a cada instante.

Isso não significa que o silêncio seja um tratamento nem que todos precisem buscá-lo da mesma maneira. Mas períodos com menos estímulos podem funcionar como espaços de recuperação para quem passou o dia submetido a muita demanda cognitiva e emocional.

Existe uma diferença importante entre preferir menos estímulos e começar a evitar situações que antes eram importantes porque qualquer barulho, contato social ou ambiente movimentado se tornou intolerável.

Quando a irritabilidade com sons aparece de maneira intensa, persistente ou acompanhada de ansiedade, alterações importantes do sono, exaustão, dificuldade de concentração ou prejuízo da vida social, vale investigar o que está acontecendo. Em alguns casos, a intolerância pode estar relacionada a um período de sobrecarga psicológica; em outros, existem condições específicas de sensibilidade a sons que exigem avaliação adequada.

Talvez não seja o barulho que aumentou

Vivemos uma época em que é possível passar praticamente todo o período em que estamos acordados recebendo algum estímulo. Mesmo nos momentos de espera, que antigamente produziam alguns minutos de tédio, existe uma tela pronta para preencher o espaço.

Talvez isso ajude a explicar por que algumas pessoas chegam ao fim do dia sem disposição para acrescentar mais uma camada de informação.

Não precisamos concluir que o cérebro está ficando mais frágil ou que festas deixaram de ser prazerosas. A questão pode ser mais simples: uma mente que passou o dia inteiro selecionando, respondendo e alternando estímulos também precisa de momentos em que não seja necessário prestar atenção em quase nada.

Às vezes, querer ir embora de um lugar barulhento não significa rejeitar as pessoas que estão ali. Pode significar apenas que, naquele momento, o silêncio se tornou mais necessário do que mais um estímulo.

Tonio Luna – CRP/PR – 08/07258
Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta
Membro da Brazil Health

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