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Saúde

Tecnologia e neurociência transformam a reabilitação de crianças e jovens

Da neuromodulação ao neurofeedback, a diretora Marcela Oliveira explica como ferramentas da neurociência podem complementar terapias e ampliar possibilidades de tratamento para crianças e adolescentes

Brazil Health

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Ciência vem desenvolvendo, há alguns anos, tecnologias capazes de estimular o cérebro de forma não invasiva para potencializar esse processo de reabilitação Shawn Day/Unsplash

Quando uma criança apresenta atrasos importantes no desenvolvimento ou um adolescente recebe o diagnóstico de ansiedade ou depressão, o caminho costuma incluir acompanhamento médico, psicoterapia, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e outras intervenções especializadas. O que poucas famílias sabem é que a ciência vem desenvolvendo, há alguns anos, tecnologias capazes de estimular o cérebro de forma não invasiva para potencializar esse processo de reabilitação.

O que muda com a neuromodulação na prática

Chamadas de neuromodulação, essas técnicas deixaram de ser assunto restrito aos laboratórios e começaram a fazer parte da rotina de hospitais, universidades e centros especializados em diversos países. Algumas aplicações já possuem evidências científicas bastante consistentes. Outras ainda estão em fase de investigação, mas acumulam resultados promissores e ajudam a ampliar as possibilidades terapêuticas para crianças e adolescentes.

O mais importante é entender que essas tecnologias não substituem nenhuma terapia. Elas funcionam como uma ferramenta complementar. Costumo dizer que a neuromodulação abre uma janela de aprendizado no cérebro. Ela não coloca uma informação nova ali dentro. Ela cria condições para que esse cérebro responda melhor aos estímulos oferecidos durante a reabilitação.

É justamente essa capacidade de favorecer a neuroplasticidade, ou seja, a habilidade do cérebro de criar conexões e reorganizar seu funcionamento, que desperta tanto interesse da comunidade científica.

O cérebro está aprendendo o tempo todo. Quanto mais entendemos esse processo, mais conseguimos desenvolver estratégias para potencializar esse aprendizado. A neuromodulação faz parte desse movimento.

O que a ciência já descobriu

Entre as técnicas mais estudadas está a estimulação transcraniana por corrente contínua, conhecida pela sigla tDCS. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista científica Brain Research reuniu os principais estudos realizados com crianças e adolescentes e concluiu que a técnica apresenta resultados promissores, principalmente, na melhora da comunicação social, na redução de comportamentos repetitivos e na regulação comportamental em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.

Existe a necessidade de estudos com um número maior de participantes e de protocolos padronizados para definir quais pacientes apresentam maior benefício e em quais situações essas técnicas devem ser incorporadas à rotina clínica, e essa é justamente a forma correta de olhar para a inovação em saúde.

A ciência avança passo a passo. Nenhuma tecnologia deve ser encarada como solução isolada. O que faz diferença é a combinação entre conhecimento científico, avaliação individualizada e um plano terapêutico construído por uma equipe multidisciplinar. Não podemos parar de estudar nunca.

Como essas ferramentas se diferenciam

Embora boa parte das pesquisas envolva crianças com alterações do neurodesenvolvimento, a neuromodulação também vem sendo estudada para diferentes condições relacionadas à saúde mental.

A estimulação magnética transcraniana repetitiva, conhecida como rTMS, já possui alto nível de evidência científica para o tratamento da depressão resistente em adultos e vem apresentando resultados promissores em adolescentes. Estudos também investigam seu uso em quadros de ansiedade, transtornos do humor, dor crônica, lesões medulares, AVC e outras condições neurológicas.

Quando falamos em neuromodulação, não estamos falando apenas de autismo ou TDAH. Estamos falando de um campo da neurociência que cresce rapidamente e que busca compreender como estimular o cérebro de forma segura para potencializar processos de recuperação, aprendizagem e reabilitação.

Esse ainda é um conhecimento pouco acessível para as famílias. Muitos pais chegam ao consultório sem nunca terem ouvido falar dessas tecnologias. Eles conhecem as terapias tradicionais, mas não sabem que a ciência continua evoluindo e que hoje existem recursos complementares capazes de ampliar as possibilidades de tratamento quando existe indicação clínica.

Cada tecnologia tem um papel diferente

Apesar de muitas vezes serem tratadas como sinônimos, as técnicas de neuromodulação possuem objetivos diferentes.

A tDCS utiliza correntes elétricas de baixa intensidade para modular a atividade cerebral.

Já a estimulação magnética transcraniana repetitiva (rTMS) utiliza campos magnéticos capazes de estimular regiões específicas do cérebro.

Também fazem parte desse universo o neurofeedback, que permite que o cérebro aprenda a regular sua própria atividade elétrica por meio de treinamento, e o biofeedback, voltado ao controle de respostas fisiológicas como respiração, frequência cardíaca e tensão muscular.

Cada recurso possui indicações específicas e deve ser utilizado apenas após avaliação clínica criteriosa. A tecnologia nunca pode ser maior do que a criança. Antes de pensar em qualquer equipamento, precisamos entender quem é aquele paciente, quais são suas dificuldades, quais objetivos queremos alcançar e quais estratégias fazem sentido para aquela família.

Quando pesquisa e prática caminham juntas

Já acompanhamos crianças que passaram a desenvolver habilidades de comunicação após um longo processo terapêutico, outras que conquistaram avanços motores importantes e adolescentes que conseguiram melhorar sua participação nas atividades do dia a dia. Nenhum desses resultados acontece por causa de uma única tecnologia. Eles são consequência de um trabalho construído por muitas mãos.

O futuro da reabilitação passa exatamente por essa integração entre ciência e cuidado. Nosso desafio é continuar produzindo conhecimento de qualidade e, ao mesmo tempo, traduzir esse conhecimento para as famílias. A inovação só faz sentido quando melhora a vida das pessoas.

Marcela Oliveira 

Diretora da Clínica Follow Kids

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