Alzheimer: diagnóstico precoce ganha importância com novos tratamentos
O envelhecimento da população mundial colocou a doença de Alzheimer diante de uma dimensão que dificilmente pode ser ignorada. Mais de 55 milhões de pessoas viviam com algum tipo de demência no mundo em 2020, segundo a Alzheimer’s Disease International (ADI). É um contingente próximo ao de toda a população da Itália, que atualmente tem cerca de 59 milhões de habitantes. A projeção é ainda mais preocupante: o número de pessoas com demência deve chegar a 78 milhões em 2030 e 139 milhões em 2050.
O Alzheimer responde por cerca de 60% a 70% dos casos de demência e tende a se tornar ainda mais frequente à medida que aumenta a expectativa de vida. As mulheres são desproporcionalmente afetadas, em parte porque vivem mais, mas a diferença não se explica apenas pela longevidade. Fatores biológicos e sociais vêm sendo investigados para compreender por que a doença atinge mais mulheres.
Para o neurologista Marcelo Zalli, esse cenário torna cada vez mais importante reconhecer a doença em suas fases iniciais. Durante muito tempo, diante de um paciente com comprometimento cognitivo leve, a evolução clínica tinha um peso decisivo: era necessário acompanhar se as dificuldades de memória e outras alterações cognitivas progrediriam até configurar uma demência por Alzheimer. Hoje, os biomarcadores permitem investigar a presença da própria patologia relacionada à doença antes que o quadro chegue a esse estágio.
O líquor ajuda a identificar o que está por trás do declínio cognitivo
A análise do líquido cefalorraquidiano, o líquor, permite pesquisar biomarcadores relacionados principalmente às proteínas beta-amiloide e tau, características da biologia do Alzheimer. Dessa forma, diante de um paciente com comprometimento cognitivo leve, é possível obter evidências de que as alterações estão associadas à patologia do Alzheimer ou investigar outras possíveis causas para os sintomas.
Essa mudança é relevante porque comprometimento cognitivo leve não significa necessariamente Alzheimer. Existem diferentes condições capazes de provocar alterações de memória e cognição. Os biomarcadores ajudam a separar situações que antes poderiam permanecer durante mais tempo em uma zona de incerteza diagnóstica.
Os critérios mais recentes para diagnóstico e estadiamento da doença reforçam essa mudança de perspectiva. O Alzheimer passou a ser entendido cada vez mais como uma doença definida também por sua biologia, que pode começar anos antes da instalação da demência. Além do líquor e do PET amiloide, biomarcadores sanguíneos vêm avançando rapidamente e começam a ampliar as possibilidades de investigação.
Diagnosticar cedo passou a interferir no tratamento
A identificação precoce ganhou ainda mais importância com a chegada dos anticorpos monoclonais dirigidos contra a beta-amiloide, como lecanemabe e donanemabe. Diferentemente dos medicamentos tradicionalmente utilizados para controlar sintomas, essas terapias atuam sobre um dos processos biológicos relacionados à doença, reduzindo a carga de placas amiloides no cérebro e podendo retardar a progressão do declínio cognitivo em pacientes selecionados.
Esses medicamentos não representam cura e não são indicados para todos os pacientes. Os estudos e aprovações concentram-se nas fases iniciais sintomáticas, como comprometimento cognitivo leve ou demência leve por Alzheimer, com confirmação da presença de patologia amiloide. O tratamento também exige avaliação criteriosa e acompanhamento por imagem devido ao risco de alterações cerebrais associadas à retirada do amiloide.
É justamente aí que diagnóstico e tratamento passam a caminhar juntos. Se as novas terapias têm sua indicação nas fases iniciais da doença, reconhecer o Alzheimer somente quando a perda cognitiva já está avançada significa perder uma parte importante da janela em que elas podem ser consideradas.
No Dia Mundial do Alzheimer, em 21 de setembro, a dimensão dos números chama atenção, mas a principal transformação talvez esteja na forma de enxergar a doença. A medicina está deixando de esperar apenas pela progressão dos sintomas para buscar sinais biológicos do Alzheimer mais cedo. Em uma doença que avança silenciosamente durante anos, antecipar o diagnóstico passou a ter consequências concretas sobre as possibilidades de tratamento.
Prof. Dr. Marcelo Zalli – CRM/SC 17.333 | RQE 13.326
Neurologista
Professor Titular de Neurologia na Universidade do Vale do Itajaí
Membro da Brazil Health
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