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Dar autonomia não basta: o chefe que “some” também faz a equipe esperar pelo seu “sim”

Pesquisa da McKinsey indica que só pouco mais de um quarto das empresas toma boas decisões delegadas, e que o problema muitas vezes está em como o chefe se afasta

Mariana Nacashima

Equipe reunida em sala de conferência durante discussão de trabalho
Profissionais participam de reunião para discutir decisões e responsabilidades da equipe Airam Dato-on / Pexels

Você deu autonomia à equipe, mas, poucos dias depois, as mesmas dúvidas voltaram à sua mesa. “O que você faria no meu lugar?”, perguntaram. Você respondeu. Na semana seguinte, o ciclo se repetiu. No fim, a equipe ganhou autonomia ou você apenas continuou tomando as decisões à distância?

A cena é a de Jackie, líder de unidade de negócio usada como exemplo em um artigo da consultoria McKinsey, publicado em outubro de 2020. Ela avisa a equipe que vai delegar mais. Em poucos dias, as decisões voltam para sua mesa, comitês surgem do nada e algumas escolhas saem erradas. Jackie fica mais ocupada do que antes. O texto usa o caso para mostrar que dar a tarefa sem preparar quem decide costuma sair caro.

O “sim” que você diz todo dia

Decidir consome tempo demais. Segundo a McKinsey, a tomada de decisão pode ocupar até 70% da agenda de executivos em nível de diretoria. E a maioria dos participantes de uma pesquisa global da consultoria disse que a própria organização não usa bem esse tempo.

O dado mais duro vem das decisões do dia a dia, as que a empresa deveria deixar com quem está mais perto do problema. Pouco mais de um quarto dos participantes afirmou que sua organização toma boas decisões desse tipo, isto é, rápidas e de alta qualidade. Segundo Aaron De Smet, Caitlin Hewes e Leigh Weiss, autores do artigo publicado pela McKinsey, delegar decisões sem preparar os profissionais para assumir responsabilidades pode sobrecarregar os gestores e comprometer os resultados do negócio.

Uma contratação isolada pode parecer pequena. A soma delas, escrevem os pesquisadores, define os talentos que a empresa tem e molda a cultura.

O chefe que some também atrapalha

Muitos donos acreditam que o oposto da microgestão é sair de cena. A McKinsey descreve quatro estilos de gestor. O centralizador e o microgerente controlam tudo e costumam sobrepor às decisões da equipe quando discordam. O “líder de torcida” se afasta e só aparece de vez em quando para animar.

Para os autores, o líder de torcida cai em uma armadilha. Quando só intervém em último caso, sua opinião soa como desconfiança, e o melhor talento fica sem orientação justamente quando mais precisa. O estilo que a pesquisa defende é o de coach: não diz o que fazer, dá orientação e segurança para decidir, cobra responsabilidade e depois se afasta.

Segundo a consultoria, o caminho está em preparar os profissionais para decidir com autonomia, sem abrir mão do acompanhamento. Organizações que adotam essa abordagem têm quase quatro vezes mais chances de tomar boas decisões e apresentam desempenho financeiro superior ao de seus pares no setor.

Qual a garantia?

Os dados vêm de uma consultoria, de pesquisas globais e de exemplos de empresas maiores nos Estados Unidos, como as da Fortune 500. Não representam o dono de uma pequena ou média empresa brasileira. A relação entre a “liderança coach” e bons resultados é uma associação apontada pela consultoria, e não prova que um estilo causa o outro.

Os próprios autores admitem que nem toda decisão deve ser delegada e que o gestor precisa escolher onde concentrar a atenção. Se a pessoa realmente não tem capacidade para decidir, a microgestão pode ser a escolha adequada.

Quem decide o quê? Se ninguém sabe, a decisão volta para você

A McKinsey lista cinco ações para a delegação funcionar. A primeira é ter uma estratégia clara, para que as equipes caminhem na mesma direção sem supervisão constante. A segunda é definir papéis: todos devem saber quem decide, quem contribui e quem não participa. Quando isso fica impreciso, dizem os autores, a decisão sobe ou fica parada.

A terceira é investir em preparo e coaching desde o início, o que exige tempo do gestor. A quarta é construir uma cultura que aceite o risco, com respaldo para quem erra. A quinta é decidir quando outro estilo faz sentido.

Há uma regra para depois da decisão: discordar e comprometer-se. Todos, independentemente da posição inicial, apoiam a decisão final.

Quem não escreve a regra continua sendo o chefe de tudo

O que a pesquisa mostra, no fim, é uma sequência. A equipe só decide quando sabe o que pode decidir, quando foi preparada para isso e quando tem respaldo caso erre. Nada disso acontece sozinho, e nenhum desses passos cabe à equipe: todos dependem do dono.

Por isso, a empresa em que “tudo sobe para você” não tem, em geral, um problema de gente. Tem um problema de regra. Enquanto o dono não definir por escrito quem decide o quê, a equipe vai continuar perguntando, e ele vai continuar respondendo.

No fim, a dependência excessiva do dono não é apenas uma questão de produtividade, mas um sinal de que a autonomia ainda não faz parte da estrutura da empresa.

Quando decisões rotineiras continuam concentradas em uma única pessoa, o crescimento do negócio passa a depender também da disponibilidade dela. Se você saísse por uma semana, quais decisões ficariam esperando o seu “sim”?

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