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Negócios

Brasileiros montam fábrica nos EUA para disputar mercado que movimenta US$4,5 bilhões em regeneração óssea

Marcio Livio Serpa e Paulo Ferreira começam a fabricar em Connecticut as primeiras amostras de nanobiovidro da Livitah Life Sciences

Luciene de Oliveira

Brasileiros montam fábrica nos EUA para disputar mercado que movimenta US$4,5 bilhões em regeneração óssea
Profissionais trabalham em laboratório de pesquisa e desenvolvimento na área da saúde Pavel Danilyuk / Pexels

A Livitah Life Sciences, empresa de biomateriais com sede em Meriden, Connecticut, começa a produzir neste mês as primeiras amostras de seu nanobiovidro, uma pasta injetável criada para acelerar a recuperação do osso em cirurgias ortopédicas e odontológicas. À frente do projeto estão dois brasileiros: o engenheiro Marcio Livio Serpa, especialista em gestão de negócios e fundador da empresa, e Paulo Ferreira, engenheiro especialista em gestão de produtos bioativos e doutor pela Unicamp.

Ferreira embarca para os Estados Unidos no dia 17 de outubro e fica no país até fevereiro. Caberá a ele conduzir a produção dos lotes iniciais e os primeiros ensaios laboratoriais, enquanto Serpa coordena a frente de negócios, investimentos e regulação.

O vidro bioativo é conhecido da medicina há décadas e já é usado como substituto de enxerto ósseo. Em contato com os fluidos do organismo, o material libera íons de cálcio e fósforo e favorece a formação de hidroxiapatita, o mineral que dá rigidez aos ossos. O uso desse material em partículas nanométricas é estudado há anos pela ciência.

A aposta da Livitah combina duas frentes. Uma é o controle preciso do tamanho e do formato das partículas. A outra é a forma de entrega: uma pasta injetável, pronta para uso no centro cirúrgico.

A geometria explica a diferença. Esferas regulares em escala nanométrica expõem mais superfície ao organismo, o que tende a acelerar a dissolução do material e torná-la mais previsível. O efeito esperado é uma osteointegração mais eficiente, processo pelo qual o osso se une ao enxerto ou ao implante.

“Quanto menor e mais regular a partícula, melhor o organismo responde a ela. O que precisamos agora é demonstrar isso em laboratório, com método e repetibilidade, lote após lote”, afirma Ferreira. Segundo ele, o desafio desta fase é reproduzir em escala de fábrica o controle obtido na bancada de pesquisa. “Fazer uma amostra boa é uma coisa. Fazer cem iguais é o que transforma pesquisa em produto”, completa.

A escolha dos Estados Unidos também tem lógica de mercado. Segundo a consultoria Fortune Business Insights, o mercado global de substitutos de enxerto ósseo deve movimentar US$4,55 bilhões em 2026, e a América do Norte concentrou 46% das vendas no ano passado. Os materiais sintéticos, categoria do vidro bioativo, já respondem por 58% desse mercado e são o segmento que mais cresce.

A planta foi inaugurada em junho, com a presença dos sócios investidores. Até aqui, a empresa captou cerca de US$1 milhão com investidores brasileiros e americanos. A Livitah também contratou a UConn Health, centro de saúde da Universidade de Connecticut, para ensaios de pesquisa e desenvolvimento e foi aceita no programa de aceleração da AdvanceCT, organização de desenvolvimento econômico que atua em parceria com o governo de Connecticut.

O passo mais exigente é o regulatório. No mercado americano, o produto é enquadrado pela FDA, a agência que regula alimentos e medicamentos no país, como dispositivo médico de classe 2, categoria que requer comprovação de segurança e eficácia antes da comercialização. A empresa estima investir cerca de US$200 mil apenas em consultorias e testes nessa fase.

“Nos Estados Unidos, um produto só chega às mãos do cirurgião depois de passar pela FDA e cada etapa precisa estar documentada desde o primeiro lote. Ter a fábrica, a pesquisa e a universidade no mesmo estado encurta muito esse caminho”, diz Serpa.

Os dois chegam ao projeto por caminhos diferentes. Ferreira pesquisa vidros bioativos e nanopartículas há mais de 10 anos. Fez doutorado na Unicamp, com período na University of Florida, nos Estados Unidos, e acumula 31 artigos científicos e cinco pedidos de patente no Brasil, um deles já concedido. Vem dele boa parte do conhecimento técnico por trás da versão nanométrica do material.

Serpa, formado em engenharia industrial mecânica e com MBA em engenharia da qualidade pela USP, soma mais de três décadas na indústria de produtos para a saúde, com passagens pela Johnson & Johnson, Shalon Medical e IKK do Brasil, além da área de pesquisa e desenvolvimento da Vale. Como consultor, liderou na Ortossíntese o desenvolvimento da primeira linha brasileira de implantes ortopédicos absorvíveis.

As amostras produzidas a partir de outubro vão alimentar os ensaios que compõem o processo junto à FDA. O foco inicial são aplicações em ortopedia e odontologia, áreas em que a velocidade de regeneração óssea interfere diretamente no tempo de recuperação do paciente e no sucesso de implantes.

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