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Davis Alves

Política e inconsciente: Por que atacamos quem pensa diferente?

Para outros, essa escolha pode se tornar algo muito mais pessoal: uma questão de identidade, orgulho e pertencimento

Davis Alves

Urna eletrônica
urna_jose_cruz_2350 José Cruz/Arquivo/Agência Brasil

Uma eleição não acontece apenas nas urnas. Ela também acontece dentro de cada pessoa, envolvendo sentimentos, expectativas, medos e até conflitos que nem sempre conseguimos explicar. Para alguns, apoiar um candidato significa escolher um projeto de governo. Para outros, essa escolha pode se tornar algo muito mais pessoal: uma questão de identidade, orgulho e pertencimento. É nesse momento que uma simples opinião contrária pode ser recebida como uma provocação, e uma discussão política pode se transformar em uma verdadeira guerra emocional.

Esse comportamento aparece nas redes sociais, nas conversas entre amigos e até dentro das famílias. Pessoas que convivem normalmente durante anos podem romper relações por defenderem candidatos diferentes. Uma crítica a determinado político provoca indignação, enquanto atitudes semelhantes praticadas por outro são justificadas. Mas por que isso acontece? Por que, em algumas situações, sentimos tanta necessidade de defender alguém que sequer conhecemos pessoalmente?

A resposta pode estar muito além das nossas opiniões políticas. Quando escolhemos apoiar um candidato, nem sempre estamos defendendo apenas suas propostas. Muitas vezes, também colocamos nessa escolha nossas esperanças, nossos medos e aquilo que acreditamos ser o melhor para o mundo. Aos poucos, a figura política pode passar a representar parte da nossa própria identidade. É como se criticar aquele candidato significasse, de alguma maneira, criticar quem somos.

O médico e criador da psicanálise, Sigmund Freud, já discutia algo semelhante em 1921, no livro Psicologia das Massas e Análise do Eu. Ele observou que as pessoas podem desenvolver ligações emocionais muito fortes com seus líderes. Isso acontece porque, em determinadas situações, enxergamos nessas figuras características que admiramos ou gostaríamos de possuir, como coragem, autoridade e capacidade de resolver problemas.

Imagine alguém que acredita profundamente que determinado político representa a honestidade e a esperança de um país melhor. Quando outra pessoa critica esse líder, o apoiador pode sentir que seus próprios valores estão sendo atacados. Em vez de avaliar o argumento apresentado, reage com raiva e tenta defender o candidato a qualquer custo. Nesse momento, a discussão deixa de ser apenas política e passa a ser também emocional.

Outro pesquisador importante, o psicanalista Wilfred Bion, estudou como as pessoas se comportam quando fazem parte de grupos. Ele percebeu que sentimentos compartilhados, como medo e insegurança, podem influenciar o comportamento coletivo. Em algumas situações, um grupo passa a acreditar que existe um inimigo responsável por suas dificuldades e que precisa ser combatido.

Na política, isso pode acontecer quando os integrantes de um movimento começam a enxergar quem pensa diferente como uma ameaça. O adversário deixa de ser alguém com outra opinião e passa a ser visto como uma pessoa perigosa, que deseja prejudicar o país ou destruir determinados valores. Quanto maior o medo compartilhado, mais forte pode se tornar a união entre os integrantes do grupo e mais difícil pode ser aceitar críticas.

As redes sociais podem intensificar esse comportamento. Quando alguém acompanha diariamente publicações que elogiam seu candidato e atacam seus adversários, pode começar a acreditar que somente seu grupo está certo. Comentários agressivos recebem apoio, acusações são compartilhadas e qualquer tentativa de diálogo pode ser interpretada como provocação. Assim, a discussão política deixa de buscar entendimento e passa a funcionar como uma disputa entre lados que precisam vencer.

A psicanalista Melanie Klein também oferece uma explicação interessante por meio de um conceito chamado cisão. Em palavras simples, trata-se da tendência de dividir as pessoas e as situações entre totalmente boas ou totalmente ruins, sem reconhecer que a realidade é mais complexa.

É o que acontece quando alguém acredita que seu candidato nunca erra, enquanto o adversário nunca acerta. Se o político que apoia toma uma decisão questionável, a pessoa encontra justificativas para defendê-lo. Mas, se o candidato do outro lado toma uma decisão semelhante, a reação pode ser de indignação. O comportamento é praticamente o mesmo, mas o julgamento muda conforme quem o praticou.

Esse mecanismo ajuda a entender por que tantas discussões políticas parecem não chegar a lugar algum. Em vez de analisar fatos, propostas e consequências, as pessoas passam a defender personagens. O político apoiado representa o bem, enquanto o adversário representa o mal. E, quando enxergamos alguém dessa maneira, ouvir seus argumentos se torna muito mais difícil.

É importante destacar que defender um candidato, participar de movimentos políticos e discordar de outras pessoas são atitudes normais e legítimas em uma democracia. O problema começa quando a identificação com um líder se torna tão intensa que qualquer crítica provoca agressividade, ofensas ou rompimento de relações pessoais.

Esse comportamento não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. Pessoas de diferentes posições políticas podem apresentar reações semelhantes. O que muda são os candidatos, os discursos e os grupos envolvidos. Os sentimentos humanos, entretanto, podem funcionar de maneiras muito parecidas.

Talvez a pergunta mais importante não seja por que o outro pensa diferente, mas por que essa diferença nos incomoda tanto. Afinal, se estamos seguros das nossas convicções, por que precisamos atacar alguém para defendê-las? Por que uma crítica a um político pode provocar mais indignação do que problemas que afetam diretamente nossa própria vida?

A política deveria ser um espaço para discutir ideias, avaliar propostas e buscar soluções para a sociedade. Entretanto, quando transformamos líderes em figuras que não podem ser questionadas, corremos o risco de substituir o pensamento crítico pela defesa emocional de um grupo.

A contribuição da psicanálise está justamente em mostrar que nem sempre compreendemos completamente os motivos das nossas reações. Às vezes, acreditamos estar defendendo uma ideia, quando também estamos tentando proteger nossa autoestima, nossas esperanças ou a sensação de pertencer a alguma coisa.

No fim, talvez o maior desafio das discussões políticas não seja aprender a conviver com quem pensa diferente, mas compreender por que precisamos transformar essa diferença em uma ameaça. Porque, quando alguém critica o político que defendemos, será que está realmente atacando quem somos ou somos nós que já não conseguimos separar nossas ideias da nossa própria identidade?

Quer se aprofundar no assunto, tem alguma dúvida, comentário ou quer compartilhar sua experiência nesse tema? Me escreva no Instagram: @davisalvesphd.

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