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Esper Chacur Filho

Lambrusco: muito além das bolhas, uma tradição italiana que merece respeito

Escritores romanos como Virgílio, Catão e Varrão mencionaram em suas obras a chamada Vitis Labrusca, expressão utilizada para designar videiras silvestres

Esper Chacur Filho

Lambrusco: muito além das bolhas, uma tradição italiana que merece respeito
Vinho Labrusco Arquivo pessoal

Poucos vinhos italianos carregam uma história tão antiga e, paradoxalmente, são tão frequentemente vítimas de preconceito quanto o Lambrusco. Associado durante décadas a produtos baratos, adocicados e de qualidade duvidosa, esse vinho efervescente da Emilia-Romagna possui, na realidade, uma tradição vitivinícola secular, uma notável diversidade de uvas e estilos e uma identidade gastronômica que merece ser redescoberta.

Sua origem remonta à Antiguidade. Escritores romanos como Virgílio, Catão e Varrão mencionaram em suas obras a chamada Vitis Labrusca, expressão utilizada para designar videiras silvestres que cresciam espontaneamente nas regiões da planície padana. Embora não seja possível estabelecer uma relação genética direta e definitiva entre essas videiras ancestrais e todas as variedades atuais, considera-se que elas estejam na origem da família de castas que conhecemos como Lambrusco. Plínio, o Velho, também registrou a vocação vitícola da região em sua obra Naturalis Historia, publicada no século I.

Ao longo dos séculos, a viticultura desenvolveu-se especialmente nas províncias de Modena e Reggio Emilia, consolidando uma tradição que atravessou a Idade Média e o Renascimento. Em 1597, Andrea Bacci, médico do papa Sisto V e estudioso da viticultura, já elogiava os vinhedos entre Modena e Parma, mencionando vinhos brancos e tintos agradavelmente frisantes. No século XIX, o conde Vincenzo Dandolo publicou, em 1814, orientações técnicas para a elaboração e o engarrafamento de vinhos espumosos, contribuindo para a evolução dos métodos de produção. O reconhecimento oficial de importantes denominações ocorreu em 1970, quando foram estabelecidas as DOC Lambrusco di Sorbara, Lambrusco Grasparossa di Castelvetro e Lambrusco Salamino di Santa Croce.

É importante compreender que Lambrusco não designa uma única uva, tampouco uma denominação de origem específica. Trata-se de uma família de variedades autóctones, predominantemente tintas, cultivadas sobretudo na Emilia Romagna. Entre as principais estão Lambrusco di Sorbara, Lambrusco Grasparossa, Lambrusco Salamino, Lambrusco Maestri, Lambrusco Marani, Lambrusco Montericco e Lambrusco Viadanese. Cada uma apresenta características particulares. O Sorbara costuma produzir vinhos mais delicados, de coloração menos intensa, acidez pronunciada e aromas florais e de frutas vermelhas. O Grasparossa, por sua vez, proporciona vinhos mais encorpados, de tonalidade rubi profunda, taninos perceptíveis e notas de amoras, cerejas e violetas. Já o Salamino oferece um perfil intermediário, com boa intensidade aromática, frescor e agradável estrutura.

Embora a família Lambrusco seja essencialmente constituída por uvas tintas, também existem versões brancas. Nesse caso, é necessário fazer uma distinção: o chamado Lambrusco Bianco não resulta necessariamente de uma variedade branca, mas frequentemente da vinificação em branco de uvas tintas da própria família, mediante a rápida separação das cascas após a prensagem, evitando a extração dos pigmentos. O resultado é um vinho de coloração amarelo-palha, fresco e delicadamente frutado. Há, entretanto, vinhos brancos produzidos na mesma região com variedades efetivamente brancas, como Trebbiano, Montuni e Grechetto Gentile, que não devem ser confundidos com o Lambrusco propriamente dito.

A DOC, sigla para Denominazione di Origine Controllata, corresponde à Denominação de Origem Controlada italiana e estabelece regras rigorosas quanto à área geográfica de cultivo, às variedades autorizadas, aos percentuais de composição, aos rendimentos dos vinhedos, aos métodos de elaboração e às características do produto final. No âmbito europeu, essas denominações são reconhecidas como DOP, ou Denominação de Origem Protegida. Sua regulamentação está fundamentada, entre outros instrumentos, no Regulamento (UE) no 1308/2013, nos Regulamentos (UE) no 2019/33 e no 2019/34 e, na legislação italiana, na Lei no 238/2016, além dos respectivos cadernos de especificações de cada denominação.

A elaboração do Lambrusco também merece atenção. O método mais utilizado atualmente é o Charmat, também conhecido como Martinotti, no qual a segunda fermentação ocorre em grandes tanques de aço inoxidável, hermeticamente fechados e submetidos a controle de temperatura e pressão. É durante essa etapa que se forma o gás carbônico responsável pelas borbulhas. O método permite preservar a expressão frutada das uvas, a vivacidade aromática e o frescor. Existem, entretanto, produtores que utilizam a fermentação tradicional em garrafa, inclusive com técnicas ancestrais, produzindo exemplares mais complexos, por vezes com sedimentos de leveduras e características próprias de evolução.

Quanto às classificações, o Lambrusco pode apresentar-se como frizante, de efervescência mais delicada, ou spumante, com pressão e formação de espuma mais intensas. Também pode ser rosado, vermelho ou branco, além de variar conforme seu teor de açúcar residual: secco, correspondente ao seco; semisecco, semiamadurecido em termos de doçura; amabile, ligeiramente adocicado; e dolce, efetivamente doce. Essa diversidade permite encontrar exemplares para diferentes ocasiões e preferências.

No aspecto sensorial, os Lambruscos tintos podem apresentar tonalidades que vão do vermelho-rubi claro ao púrpura intenso, frequentemente acompanhadas de reflexos violáceos. Seus aromas evocam cerejas, framboesas, amoras, ameixas, violetas e, em determinados exemplares, notas de especiarias e amêndoas. Na boca, a acidez refrescante, a efervescência e os taninos, quando presentes, proporcionam equilíbrio e agradável persistência. Os exemplares brancos, por sua vez, apresentam notas de flores, maçã, frutas cítricas e pera, com paladar leve e vivaz.

Na gastronomia italiana, o Lambrusco encontra alguns de seus melhores parceiros nos embutidos da Emilia-Romagna, especialmente o Prosciutto di Parma, a Mortadella de Bologna e o Culatello di Zibello. Também acompanha muito bem tortellini, tagliatelle al ragù, gnocco fritto e carnes assadas. Merece destaque a lasanha à bolonhesa, cuja riqueza do molho de carne, a cremosidade do béchamel e a untuosidade do queijo encontram na acidez e nas borbulhas de um Lambrusco tinto seco um contraponto particularmente feliz. É um casamento gastronômico de grande coerência regional.

No Brasil, as possibilidades são igualmente estimulantes. Na cozinha amazonense, um Lambrusco branco seco ou rosado pode acompanhar peixes de água doce, como o pirarucu, especialmente quando preparado na brasa, enquanto um tinto leve pode surpreender diante de pratos mais condimentados, como o pato no tucupi. Na culinária gaúcha, exemplares tintos secos, especialmente os mais estruturados, encontram afinidade com churrasco, costela assada e galeto. No Ceará, a combinação com carne de sol, baião de dois e peixes fritos pode ser bastante interessante, sobretudo com versões rosadas e tintas de menor intensidade tânica. Na cozinha mineira, o frescor do Lambrusco ajuda a equilibrar a gordura de um tutu de feijão, de um feijão tropeiro ou de uma costelinha suína. Já no interior de São Paulo, a leitoa à pururuca, o frango caipira, a linguiça artesanal e o tradicional virado à paulista oferecem excelentes oportunidades de harmonização, especialmente com os Lambruscos tintos secos.

Para aproveitar suas qualidades, recomenda-se servir os exemplares brancos e rosados entre 6°C e 8°C, enquanto os tintos devem ser apresentados ligeiramente menos frios que os espumantes convencionais, entre 8°C e 12°C, conforme sua estrutura. Quanto às taças, vale evitar as flûtes excessivamente estreitas, que limitam a percepção aromática. Uma taça de espumante em formato tulipa ou uma taça de vinho branco, com bojo moderado, permite apreciar melhor os aromas e a evolução das borbulhas.

Resta, portanto, enfrentar um equívoco que prejudicou a reputação internacional do Lambrusco: a associação automática entre esse nome e vinhos de baixa qualidade. É verdade que sua popularização comercial, especialmente no mercado internacional durante as décadas de 1970 e 1980, favoreceu a disseminação de versões industrializadas, muito adocicadas e produzidas em grande escala. Entretanto, confundir esses produtos com a totalidade da categoria é um erro semelhante a julgar toda a produção de Bordeaux por seus exemplares mais elementares.

Existem Lambruscos de grande qualidade, elaborados com rigor técnico, respeito às características de cada variedade e profunda identificação com seus territórios de origem. Alguns apresentam elegância, complexidade e personalidade suficientes para surpreender até os consumidores mais exigentes. O verdadeiro apreciador de vinhos deve, portanto, abandonar os preconceitos e compreender que qualidade não depende necessariamente de prestígio, preço elevado ou ausência de borbulhas. O Lambrusco, quando bem elaborado, é um vinho de identidade própria, tradição admirável e extraordinária vocação gastronômica. Mais do que uma bebida informal, representa uma das expressões mais autênticas e prazerosas da cultura enológica italiana. Salut!

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