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Consumidor brasileiro busca carne premium, mas preço ainda limita acesso, diz empresário do setor

Júlio Bogiel afirma que qualidade começa na genética do boi e que custos, exportações e falta de mão de obra pressionam o mercado

Luciene de Oliveira

Consumidor brasileiro busca carne premium, mas preço ainda limita acesso, diz empresário do setor
Júlio Bogiel Divulgação

Em entrevista à Jovem Pan Business, Júlio Bogiel, sócio da Bogiel Carnes Premium, afirmou que o mercado brasileiro de carnes passa por uma transformação marcada por consumidores mais informados, maior exigência por qualidade e uma cadeia produtiva pressionada por custos elevados, exportações e falta de mão de obra especializada.

Segundo o empresário, a antiga divisão entre “carne de primeira” e “carne de segunda” já não traduz a realidade do setor. Para ele, o conceito mais adequado hoje é o de “boi de primeira”, já que a qualidade do produto começa muito antes de chegar ao ponto de venda.

“Primeiro vem a genética. O pai e a mãe já precisam vir de uma genética para produzir um boi de qualidade”, disse. Depois dessa etapa, entram fatores como alimentação, manejo, região de criação e forma de terminação do animal.

Bogiel explica que a criação a pasto, mais comum em algumas regiões do Sul, costuma resultar em carnes com mais sabor. Já o confinamento, presente com mais força em áreas do Centro-Oeste e do Norte, tende a produzir carnes mais macias. A percepção do consumidor brasileiro, no entanto, ainda está muito associada à maciez.

“O nosso paladar ainda é muito voltado para a maciez. Às vezes, uma carne muito macia não é tão saborosa quanto uma carne menos macia”, afirmou.

A mudança de comportamento também aparece na popularização de cortes que antes eram pouco conhecidos pelo público. Nomes como Ancho, Chorizo, Denver e Shoulder ganharam espaço em restaurantes, churrascarias e supermercados. Muitos deles, porém, correspondem a partes tradicionais do boi, como contrafilé, acém e paleta.

Para Bogiel, a influência de países como Argentina e Uruguai ajudou o brasileiro a ampliar seu repertório. Durante muito tempo, o consumo no churrasco esteve concentrado em cortes como picanha, maminha, fraldinha e costela. Com a expansão da grelha e da parrilla, outros cortes passaram a ser valorizados. “Com a adaptação da grelha, surgiram outros cortes tão bons quanto”, diz o empresário.

Apesar do avanço da informação, o preço segue como um dos principais limitadores do consumo. Segundo Bogiel, uma picanha premium pode chegar a R$ 130 ou R$ 140 o quilo, valor que restringe o acesso de parte relevante da população. Ainda assim, ele avalia que o desejo por produtos de maior qualidade se espalhou por diferentes faixas de renda.

“O consumidor mudou bastante. Mesmo as camadas de menor renda querem uma carne de qualidade. Talvez não comprem toda semana, mas compram a cada 15 ou 30 dias”, disse.

O empresário afirma que a alta dos preços está relacionada a uma combinação de fatores. Entre eles estão custos de produção, alimentação animal, confinamento, impostos, logística e impactos climáticos. Secas em algumas regiões, enchentes em outras e redução de matrizes afetam a oferta de animais e pressionam toda a cadeia.

“Hoje, o custo está muito alto. O produtor rural tem um custo elevadíssimo. Milho, farelo, confinamento, tudo influencia”, afirmou.

No varejo, a diferenciação também passou a depender da apresentação do produto. Embalagem, iluminação, padronização dos cortes e confiança no estabelecimento influenciam a decisão de compra. Segundo Bogiel, o primeiro contato do consumidor com cortes mais nobres costuma ser visual.

A carne bem cortada, embalada e exposta de forma atrativa chama a atenção. Depois, se a experiência for positiva, o consumidor tende a repetir a compra. Para o empresário, esse processo ajuda a explicar a adesão gradual a cortes menos tradicionais.

Ele também alerta para um hábito comum nas compras: observar apenas o valor final da bandeja, sem comparar o preço por quilo. Segundo Bogiel, muitos consumidores acreditam estar pagando menos, mas levam uma quantidade menor de carne.

“Às vezes a pessoa acha que está barato, mas está comprando uma porção pequena. É preciso olhar o preço do quilo”, disse.

Outra mudança importante no setor é o avanço da carne embalada em caixaria, com cortes já separados e padronizados. O modelo facilitou a operação de supermercados e açougues, mas também contribuiu para reduzir a presença do açougue tradicional de rua.

Antes, o açougueiro comprava o boi inteiro e precisava vender todos os cortes. Hoje, pode adquirir caixas específicas de picanha, maminha, fraldinha ou outros produtos. A mudança trouxe eficiência, mas também evidenciou um gargalo: a falta de profissionais qualificados.

“Está faltando açougueiro que saiba pegar um boi inteiro e fazer todos os cortes. É uma profissão que vem desaparecendo”, afirmou.

A tecnologia já auxilia áreas comerciais, de estoque e de automação administrativa, mas ainda não substitui a mão de obra humana nas etapas mais técnicas da operação frigorífica. Segundo Bogiel, processos como desossa, separação de cortes e manipulação ainda dependem de profissionais treinados.

“A inteligência artificial ajuda no comercial e no estoque. Mas, na parte de abate e manipulação, ainda não chegou a esse ponto”, disse.

Para os próximos anos, o empresário vê um cenário de difícil previsibilidade. A demanda externa segue forte, especialmente na Ásia, enquanto o mercado interno sente os efeitos da perda de poder aquisitivo. A reforma tributária e as oscilações nas exportações também podem alterar rapidamente preços e margens.

Sem detalhar planos de expansão, Bogiel afirma que a empresa busca ser reconhecida pela excelência dos produtos, com foco em qualidade, atendimento e carnes de maior valor agregado. Segundo ele, o setor exige decisões quase diárias, diante da volatilidade de preços, da oferta de animais e do comportamento das exportações.

“O mercado é quase diário. Se a exportação trava, a carne volta para o mercado interno e o preço cai. Se falta produto, o preço sobe. É uma cadeia muito sensível”, declarou.

Mesmo diante das incertezas, Bogiel acredita que o caminho para empresas do setor está na excelência do produto, na consistência da entrega e na capacidade de comunicar melhor ao consumidor o valor por trás de cada corte.

Para ele, entender origem, preparo, armazenamento e preço real deixou de ser assunto restrito a especialistas. “Carne boa começa muito antes da gôndola”, concluiu.