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Hamas anuncia saída do governo de Gaza após quase duas décadas

Gestão do território será transferida para um comitê nacional de tecnocratas

AFP

Vista de edifícios destruídos, entre eles uma mesquita, no norte do campo de refugiados de Al Nuseirat, centro da Faixa de Gaza, 17 de maio de 2024. Mais de 35.000 palestinos e mais de 1.400 israelenses foram mortos, de acordo com o Ministério da Saúde palestino e a Defesa de Israel (IDF), desde que militantes do Hamas lançaram um ataque contra Israel a partir da Faixa de Gaza em 7 de outubro de 2023, e as operações israelenses em Gaza e na Cisjordânia que se seguiram.
Vista de edifícios destruídos, entre eles uma mesquita, no norte do campo de refugiados de Al Nuseirat, centro da Faixa de Gaza EFE/EPA/MOHAMMED SABER

O grupo terrorista Hamas anunciou nesta segunda-feira (6) que dissolveu o órgão que governou a Faixa de Gaza durante quase duas décadas, abrindo caminho para que um comitê de tecnocratas administre o território.

A iniciativa representa uma mudança política significativa para o movimento islamista palestino, que assumiu o poder em 2007 após confrontos com o Fatah, partido do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sediada em Ramallah, na Cisjordânia ocupada.

Desde que o cessar-fogo entre Israel e o Hamas entrou em vigor em outubro, o movimento islamista declarou sua disposição de entregar o poder na Faixa de Gaza a outra liderança palestina, mas questões complexas, como seu desarmamento, permanecem sem solução.

O chefe do comitê de emergência governamental, Mohammed al-Farr, “apresentou oficialmente sua renúncia”, disse à AFP Ismail al-Thawabta, chefe do gabinete de imprensa do governo do Hamas.

Ele também “decidiu dissolver o comitê para facilitar a transição administrativa e governamental para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês)”, acrescentou.

O NCAG, que atualmente tem sede no Cairo, foi criado pelo Conselho da Paz estabelecido pelo presidente americano, Donald Trump, durante as negociações que resultaram em um cessar-fogo entre o Hamas e Israel em outubro de 2025.

Desde então, diversos cenários foram mencionados, mas a situação permanece estagnada. Um dos principais pontos de atrito é o desarmamento do Hamas, que só considera essa possibilidade no âmbito de uma iniciativa política palestina. Israel se opõe.

“O Hamas dá um novo passo ao renunciar à administração da Faixa de Gaza para privar a ocupação de qualquer pretexto para continuar sua agressão e sua guerra de extermínio”, declarou à AFP o porta-voz do movimento, Hazem Qassem.

Um funcionário do alto escalão do Hamas, que pediu anonimato, disse à AFP que o movimento informou às outras facções palestinas sobre sua decisão durante uma recente reunião no Cairo e, segundo ele, todas a aprovaram.

O NCAG, com base no Cairo há vários meses, “está totalmente preparado para assumir suas responsabilidades nacionais assim que estejam disponíveis os recursos e capacidades necessários”, escreveu no X seu presidente, Ali Shaath.

O Conselho da Paz reiterou que o princípio fundamental é a “concentração de todas as armas sob controle do NCAG”.

Uma decisão ‘simbólica’

O cientista político Mkhaimar Abusada explicou à AFP que se trata, antes de tudo, de uma decisão “simbólica”. “O problema não é a dissolução do seu comitê governamental, e sim a aceitação de seu desarmamento (…) continua sendo o principal ponto de bloqueio”, acrescentou.

A primeira fase do cessar-fogo permitiu a libertação dos últimos reféns israelenses mantidos pelo Hamas em troca de palestinos presos por Israel.

A passagem para a segunda fase, que deveria prever o desarmamento do Hamas e uma retirada progressiva das forças israelenses de Gaza, está há meses estagnada, e Israel reforçou sua presença no território.

Israel descarta o retorno do Hamas ao poder, mas também se opõe, por enquanto, a que a Autoridade Palestina assuma o controle. Hamas e Israel se acusam mutuamente de violar o cessar-fogo.

Pelo menos 1.072 palestinos morreram na Faixa de Gaza desde a entrada em vigor da trégua, segundo o Ministério da Saúde do território, sob autoridade do Hamas, cujos números são considerados confiáveis pela ONU.

O exército israelense registra seis baixas em Gaza no mesmo período: cinco soldados e um terceirizado.