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Luca Bassani

Trump dobra a aposta, literalmente

Os temores econômicos continuam a se dispersar pelo mundo à medida que a guerra comercial se intensifica e Donald Trump adiciona 50% de tarifas aos produtos chineses

Luca Bassani

Vista noturna da Casa Branca, em Washington, DC
US President Trump signs order to expand coal mining for data centers and fossil fuel revival Al Drago/EFE/EPA/POOL

Mais um capítulo da guerra comercial foi escrito por Donald Trump e sua administração. A promessa em tom ameaçador aos chineses, se cumpriu. A partir do dia 9 de abril, mais 50% de tarifas serão adicionadas aos já vigentes 54% de taxas aos produtos provenientes da China. Com isso, a tributação alcançará o patamar de 104%, literalmente dobrando o preço das mercadorias automaticamente apenas com impostos. A estratégia ousada, e pouco compreensível do ponto de vista do liberalismo econômico, ainda provoca descontentamento e preocupação ao redor do mundo.

A China, que tinha um prazo curto para responder às demandas de Trump, falou de forma clara que irá revidar até o fim e não se curvará às ameaças. A posição irredutível dos chineses é algo que Donald Trump não está acostumado a encontrar em seu caminho como empresário ou político. Apesar de muitas nações serem fortes economicamente e essenciais para o comércio global, quase todas sabem não possuir o cacife para confrontar os Estados Unidos da América quando o tema é economia e comércio. Os tempos mudaram rapidamente, favorecendo o gigante asiático que pela primeira vez em muitas décadas, aceitou duelar.

Da mesma maneira que essa guerra tem caráter econômico, ela tem importância geopolítica. Mostrar fraqueza em um momento como este, seria abandonar simbolicamente a posição de liderança almejada a se manter do lado americano e sonhada a se conquistar, do lado chinês. Ambos os países, seus ministros das finanças, ministros da economia, presidentes e empresários sabem que a relação sino-americana é hoje simbiótica. Apesar de terem a robustez para dobrar a aposta e responder de maneira altiva, os dois lados têm consciência que a espiral do caos desencadeada pode ser incontrolável se as apostas forem crescendo sem limite.

O vice-presidente JD Vance, também intensificou a maneira como a guerra comercial ocorre ao chamar os chineses de “camponeses”. Ao partir para uma linguagem pejorativa para tratar seus rivais, os Estados Unidos deixam claro que este tarifaço não tem apenas objetivos econômicos e buscam claramente desestabilizar o constante e consistente crescimento chinês das últimas décadas. A China respondeu, dizendo ser surpreendente ouvir comentários “ignorantes e desrespeitosos” por parte de uma das lideranças norte-americanas, mas reforçou sua posição de não recuar. O imbróglio econômico tem agora chances de também se tornar diplomático, caso não ocorra uma retratação por parte de Vance.

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As premissas de maior segurança nacional e reindustrialização são extremamente válidas por parte do presidente norte-americano. De fato, uma nação ao ver sua hegemonia ameaçada, sempre recorre a todas as possíveis alternativas para frear o processo de declínio que vive e evitar a ultrapassagem de quem vem logo atrás. Todavia, o remédio tão amargo e possivelmente tão danoso, pode trazer resultados imprevisíveis, onde a população de classe baixa e classe média pagariam o preço com uma inflação alta. Este jogo retórico, tarifário e econômico está apenas no começo e por enquanto nenhum dos lados abandonará a aposta.

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