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Denise Campos de Toledo

Economia: previsões mais estáveis não significam menos incertezas

A política monetária contracionista do BC deveria estar freando mais a atividade, reduzindo o espaço para reajustes de preços, diante de uma demanda também mais fraca

Denise Campos de Toledo

Banco Central (BC)
Banco Central (BC) Marcello Casal Jr / Agência Brasil

As expectativas do mercado seguem relativamente estáveis, até com alguma queda das previsões para o IPCA, apesar de a projeção média, em 5,15% para este ano, permanecer bem acima do teto da meta, de 4,5%. E tem um outro ponto a ser observado: embora haja essa percepção quanto à uma possível desaceleração da inflação no curto prazo – a depender, claro, do futuro da guerra, do transporte de mercadorias e outros fatores, até o efeito do El Niño sobre a produção agrícola, que deve ser mais forte em 2027 – as previsões para o IPCA, dos próximos anos, têm passado por ajustes para cima. Na prática, isso se traduz em desancoragem das expectativas, o oposto que o Banco Central espera com a manutenção dos juros elevados. Não sem motivo o horizonte de convergência da inflação para o ponto central da meta, os 3%, já mudou para o começo de 2028.

A política monetária contracionista do BC deveria estar freando mais a atividade, reduzindo o espaço para reajustes de preços, diante de uma demanda também mais fraca. Mas tem a queda de braço com o governo, que mantém estímulos à atividade e ao consumo, até com linhas de crédito direcionadas, mais baratas. O mercado de trabalho, com bons números de emprego e renda, também dá algum fôlego adicional à demanda, assim como as renegociações de dívidas, como o Desenrola 2.0.

Em paralelo, mesmo com o governo, supostamente, mantendo o foco na meta fiscal, a evolução das contas públicas traz mais pressões sobre a inflação, o que mantém a curva de juros do mercado também mais pressionada. O ganho na renda fixa deve ficar de 7 a 8% ao ano, além da inflação. Bom para quem pode investir. Ruim para quem deve ou precisa de crédito. E isso também bate na dívida pública, piorando o quadro fiscal. É uma mistura de incertezas que demanda muita cautela na prospeção do cenário. Até para o Banco Central na avaliação das condições para futuras decisões sobre os juros básicos.

E a economia brasileira ainda está sujeita a fatores, como as tarifas dos Estados Unidos. Como citei, ainda tem a situação do agro, diante de possíveis eventos climáticos mais pesados, fora o aumento dos custos de produção, até pela guerra – fertilizantes, frete, combustíveis. Alimentos podem ficar mais caros. Sem esquecer que a proximidade das eleições, pode ser mais um fator de incerteza.

Nesse contexto, o Banco Central até pode jogar meio parado, sem mexer muito na Selic. Daí a expectativa da taxa básica em 14% ao longo deste ano, com apenas mais um corte de 0,25 ponto em agosto. Mas, para empreendedores, para as empresas, o momento é de planejamento com cautela e avaliação muito criteriosa do quanto todos esses fatores podem afetar a própria condição financeira, além do setor em que atuam. Não dá pra seguir no dia a dia, sem prestar atenção nas variáveis econômicas e tudo que pode influenciar.