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Jesualdo Júnior

Quando os jovens mudam a história: das ‘baratas’ da Índia aos caras-pintadas do Brasil

Movimento espontâneo de estudantes e jovens tomou as ruas de diversas cidades indianas para protestar contra o sistema nacional de exames, acusado de sucessivos vazamentos, fraudes e profunda desigualdade

Jesualdo Júnior

'Baratas' da Índia
'Baratas' da Índia Divulgação

Durante décadas, a política acostumou-se a olhar para os jovens com uma mistura de paternalismo e desconfiança. Ora tratados como idealistas ingênuos, ora como massa de manobra, raramente lhes foi reconhecida a condição de sujeitos capazes de alterar os rumos concretos do poder. A história, entretanto, insiste em contrariar essa percepção. Sempre que uma geração decide transformar indignação em mobilização coletiva, governos aparentemente inabaláveis descobrem que a legitimidade política possui um limite invisível: o consentimento social.

Nas últimas semanas, um movimento espontâneo de estudantes e jovens tomou as ruas de diversas cidades indianas para protestar contra o sistema nacional de exames, acusado de sucessivos vazamentos, fraudes e profunda desigualdade. O movimento recebeu o curioso apelido de “baratas” (“cockroaches”), expressão inicialmente utilizada de forma pejorativa nas redes sociais para desqualificar os manifestantes. O insulto, porém, acabou apropriado pelos próprios jovens, que transformaram a ofensa em identidade política. A lógica era simples: por mais que tentassem eliminá-las, as “baratas” sempre reapareciam.

O resultado foi surpreendente. Diante da intensidade da pressão popular, o primeiro-ministro Narendra Modi acabou aceitando a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, e prometeu promover mudanças estruturais na condução dos exames nacionais. Em uma democracia de dimensões continentais e tradicionalmente marcada por um Executivo extremamente forte, a concessão possui enorme significado político: mostrou que, mesmo governos amplamente majoritários, continuam dependentes da confiança da sociedade.

A história oferece diversos precedentes para compreender esse fenômeno. Na França, em maio de 1968, tudo começou com reivindicações estudantis aparentemente localizadas. Universidades foram ocupadas, manifestações multiplicaram-se e, em poucos dias, trabalhadores aderiram ao movimento, desencadeando a maior greve geral da história francesa. Estima-se que aproximadamente dez milhões de trabalhadores tenham paralisado suas atividades. O governo do general Charles de Gaulle, símbolo da estabilidade da Quinta República, viu-se diante de uma crise sem precedentes. Embora De Gaulle tenha vencido as eleições realizadas logo depois, sua autoridade jamais voltou a ser a mesma. Menos de um ano depois, derrotado em um referendo constitucional, renunciou à Presidência da República. Maio de 1968 não apenas transformou a política francesa; alterou profundamente costumes, universidades, relações familiares, direitos civis e a própria cultura ocidental.

O Brasil viveu experiência semelhante pouco mais de duas décadas depois. Em 1992, o movimento dos caras-pintadas surgiu em meio às denúncias de corrupção que atingiam o governo Fernando Collor de Mello. Estudantes secundaristas e universitários passaram a ocupar ruas e praças com os rostos pintados nas cores da bandeira nacional. A mobilização rapidamente extrapolou o ambiente estudantil e converteu-se em um movimento nacional pelo impeachment presidencial.

A permanência histórica desses movimentos revela que o protagonismo juvenil nunca esteve ligado apenas à idade de seus participantes, mas à sua capacidade de perceber, antes dos demais grupos sociais, as rupturas de seu tempo. A juventude costuma ser o primeiro segmento a identificar quando as instituições deixam de responder às expectativas coletivas e, exatamente por isso, converte-se frequentemente no catalisador de transformações políticas mais amplas.

Cada geração utiliza os instrumentos de comunicação disponíveis em sua época. Em maio de 1968, eram panfletos mimeografados, assembleias universitárias e rádios estudantis. Em 1992, a televisão levou os rostos pintados para milhões de brasileiros. Hoje, algoritmos, redes sociais e plataformas digitais permitem que uma indignação localizada alcance dimensão nacional — ou mesmo global — em questão de horas. Mudam as tecnologias; permanece a lógica da mobilização coletiva.”

O episódio ocorrido na Índia revela justamente a face mais madura desse processo democrático. Não houve ruptura institucional, tampouco tentativa de subversão da ordem constitucional. Houve pressão social suficiente para produzir responsabilização política, revisão de políticas públicas e resposta governamental. Em democracias consolidadas, essa talvez seja a forma mais legítima de exercício do poder popular: não a substituição das instituições, mas a capacidade permanente de influenciá-las.

Há uma constante que atravessa Paris em 1968, Brasília em 1992 e Nova Délhi em 2026. Em todos esses momentos, os jovens não reivindicavam simplesmente ocupar o poder; exigiam que o poder voltasse a ouvir a sociedade. É justamente essa diferença que distingue movimentos históricos de meros episódios de contestação. Não se trata de negar a política institucional, mas de recordar-lhe que sua legitimidade não decorre apenas das urnas, mas da manutenção contínua da confiança pública.

Talvez seja essa a maior lição deixada pelas ‘baratas’ indianas, pelos estudantes franceses de 1968 e pelos caras-pintadas brasileiros. Em diferentes épocas, idiomas e contextos políticos, todos demonstraram que nenhuma democracia permanece verdadeiramente viva quando a juventude perde a esperança de ser ouvida — e que nenhum governante permanece verdadeiramente forte quando deixa de ouvir aqueles que representam o futuro.
Governos mudam, partidos desaparecem e líderes passam. Mas a história conserva uma constante: toda vez que uma geração decide que já não aceita o mundo como ele é, a política acaba sendo obrigada a mudar com ela.

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