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Alan Ghani

Liturgia não é frescura

Esse protocolo básico de relações internacionais não é regra de etiqueta

Alan Ghani

Javier Milei
Javier Milei EFE/EPA/MARTIN DIVISEK

O presidente da Argentina, Javier Millei, veio ao Brasil participar da convenção do PL. Chamou a atenção um chefe de Estado vir aqui para participar de um evento político de um candidato da oposição. Geralmente o apoio a candidaturas em outras nações ocorre por recados pela imprensa ou pelas redes sociais, e não in loco no território que se dará a disputa.

Milei não só participou do evento como fez duras críticas ao ministro Alexandre de Moraes e ao presidente Lula. A questão não é se as críticas são válidas ou não. É claro que, numa democracia, a liberdade de expressão é um direito básico e nenhuma autoridade está imune a críticas. O ponto central aqui é que o presidente de uma nação não pode ir a outro país para xingar presidentes ou ministros de Estado.

Esse protocolo básico de relações internacionais não é frescura ou regra de etiqueta. É uma liturgia testada por gerações e que sobrevive por uma razão fundamental: as relações econômicas e geopolíticas entre países estão muito acima de interesses político-partidários. Governantes passam, as relações entre nações continuam. 

Independentemente se for Lula ou Flávio Bolsonaro o próximo presidente, Milei tem uma série de interesses para lidar com o Brasil, desde relações comerciais do Mercosul até questões relacionadas à Itaipu. 

Milei não precisa apoiar ou elogiar Lula, mas é preciso manter um mínimo de decoro, pois precisará lidar com ele, caso o atual presidente do Brasil seja reeleito. Milei não é um jornalista cujo papel é criticar ministros e governantes por sua atuação, mas um chefe de Estado cuja função é defender os interesses do povo argentino. E defender os interesses dos argentinos significa manter relações harmoniosas e pragmáticas com o Brasil, independentemente de qual seja o governo. 

Da mesma maneira que Lula errou em chamar Trump de “fascista” durante a campanha do candidato republicano, Milei pisou na bola com sua participação na convenção do PL. Faz um ótimo governo, mas precisa ter respeito a liturgia do seu cargo. Liturgia não é frescura.