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Negócios

Clientes com menos tempo mudam a rotina dos negócios de beleza

Franquias de saúde, beleza e bem-estar faturaram 18% mais no primeiro trimestre

Luciene de Oliveira

Clientes com menos tempo mudam a rotina dos negócios de beleza
Franquias de saúde, beleza e bem-estar faturaram 18% mais no primeiro trimestre Divulgação

Durante muito tempo, segunda-feira foi dia de salão fechado. O hábito começou a perder força quando parte das empresas percebeu que a agenda do consumidor já não combinava com horários tão rígidos. Agora, algumas marcas abrem também aos domingos. A mudança parece simples, mas revela uma transformação maior nos negócios de beleza.

O cliente continua interessado em cuidar da aparência. O que diminuiu foi o tempo disponível para marcar, esperar e permanecer horas no mesmo lugar. Isso abriu espaço para estabelecimentos sem agendamento, procedimentos mais rápidos e endereços capazes de concentrar diferentes cuidados.

Os números do franchising ajudam a dimensionar esse movimento. O segmento de Saúde, Beleza e Bem-Estar faturou 18% mais no primeiro trimestre de 2026 do que no mesmo período do ano anterior. Foi um dos melhores desempenhos entre as franquias brasileiras.

A Associação Brasileira de Franchising (ABF) atribui o resultado à procura por autocuidado, conveniência e experiências personalizadas. A categoria já havia encerrado 2025 com crescimento nominal de 14,6%, beneficiada pela abertura e maturação de unidades, qualificação de trabalhadores e maior presença de salões express com várias opções em um só lugar.

Não se trata apenas de uma corrida por novos pontos comerciais. As empresas estão revendo horários, escolhendo procedimentos que cabem em uma visita curta e tentando entender o que ainda faz sentido para quem tem pouco espaço livre na agenda.

Uma pesquisa global da NielsenIQ, divulgada em 2025, mostrou que metade dos consumidores considera os hábitos regulares de autocuidado mais importantes hoje do que há cinco anos. Beleza, saúde e bem-estar, antes tratados como áreas separadas, aparecem cada vez mais próximos nas decisões de consumo.

A Fast Escova está nesse mercado desde 2018. Criada em Goiânia, a marca adotou o atendimento sem hora marcada para serviços de cabelo e maquiagem. A escova não era novidade. O modo de oferecê-la, sim.

“Não inventamos a escova. Criamos uma nova forma de a cliente ter acesso ao serviço no momento em que quer ou precisa”, diz Márcia Queiroz, cofundadora e sócia da Fast Escova.

A empresa começou a abrir às segundas-feiras quando muitos salões ainda mantinham as portas fechadas nesse dia. O domingo é a aposta mais recente. Algumas lojas já funcionam durante toda a semana.

É o caso da Fast Spa instalada na Vila Mariana, em São Paulo, que iniciou as atividades com funcionamento durante os sete dias. A ideia é alcançar quem não consegue encaixar os cuidados pessoais no horário comercial nem concentrar todos os compromissos no sábado.

“Queremos estar disponíveis de segunda a segunda. A abertura aos domingos acompanha a evolução do mercado e o comportamento da cliente”, afirma Márcia.

O horário, porém, resolve apenas parte da questão. Também é preciso decidir o que oferecer. Embora a escova continue como principal fonte de receita da Fast Escova, o cardápio passou a incluir design de sobrancelhas e retoque de fios brancos com produtos que agem em 10 minutos.

Para entrar na lista, o procedimento precisa ser rápido, recorrente e de baixa complexidade. Coloração completa, luzes e mechas ficam de fora porque exigem outra dinâmica de trabalho e mais tempo de permanência.

Na prática, a rede não tenta reproduzir tudo o que existe em um salão convencional. A intenção é permitir que uma pessoa faça a escova, cuide das sobrancelhas ou retoque os fios brancos na mesma visita, sem transformar uma necessidade pontual em um compromisso de várias horas.

A Fast Escova possui cerca de 350 unidades em funcionamento e reúne mais de 5 mil profissionais. Segundo Márcia, o faturamento cresceu 55% em 2025.

Crescer nesse ritmo também expõe uma fragilidade do setor: não basta inaugurar lojas se faltarem pessoas preparadas para executar os procedimentos. Em uma atividade que depende diretamente do trabalho humano, a tecnologia pode organizar agendas, pagamentos e sistemas, mas não substitui quem está diante da cliente.

“Nosso negócio é 100% feito por pessoas. Sem profissionais, não conseguimos operar”, declara a executiva.

A escassez de mão de obra não é exclusividade dos salões. Em levantamento recente realizado pela ABF com redes de diferentes áreas, 73,1% dos participantes relataram dificuldades para formar equipes.

Na Fast Escova, o treinamento é o maior departamento da franqueadora em número de funcionários. Cada franqueado contrata seu time, enquanto a companhia assume a capacitação. A tarefa se torna mais complexa conforme a marca chega a regiões com hábitos, perfis de público e maneiras distintas de trabalhar.

“São mais de 5 mil profissionais na ponta, e cada pessoa pode ter uma visão ou executar o trabalho de uma maneira. Depois da formação das equipes, a padronização é o nosso maior desafio”, diz Márcia.

Enquanto tenta manter o mesmo padrão nas unidades, o grupo avança para outra frente. A Fast Spa foi criada há dois anos para oferecer massagens, limpeza de pele e terapias corporais e faciais não invasivas. O processo de franquia começou há aproximadamente um ano. Hoje, são 12 endereços abertos e quase 30 contratos vendidos, segundo a sócia.

Parte dos franqueados da Fast Escova decidiu investir também na segunda marca, embora não exista obrigatoriedade de operar as duas. A proximidade entre as atividades permite compartilhar sistemas, conhecimento administrativo e parte da gestão.

O interesse por esse tipo de negócio acompanha um mercado que ganhou peso na economia mundial. O Global Wellness Institute calcula que o setor de bem-estar movimentou US$6,8 trilhões em 2024 e poderá alcançar US$9,8 trilhões em 2029. Cuidados pessoais e beleza devem continuar como a maior categoria.

O salão tradicional não perdeu espaço, nem todos os procedimentos podem ser acelerados. O que mudou foi a disposição do consumidor para adaptar toda a agenda às regras do estabelecimento. Para uma parcela crescente do público, escolher onde cuidar da aparência também depende de uma pergunta bastante objetiva: quanto tempo isso vai levar?