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Wanderley Nogueira

Cusparada na Vila: desrespeito e um velho problema do futebol

Reinaldo não economizou palavras. Em suas redes sociais, classificou o ato como 'nojento, lamentável e vergonhoso'

Wanderley Nogueira

Reinaldo, Mirassol
Reinaldo, Mirassol Divulgação

No último domingo (23 de agosto de 2026), o empate por 1 a 1 entre Santos e Mirassol, pela 24ª rodada do Campeonato Brasileiro, na Vila Belmiro, ficou marcado por uma cena lamentável.

Aos 25 minutos do primeiro tempo, enquanto o lateral-esquerdo Reinaldo, do Mirassol, se preparava para cobrar um arremesso lateral próximo à arquibancada, um torcedor do Santos cuspiu nele, atingindo o rosto e o braço.

A imagem foi captada pela transmissão e registrada na súmula pela árbitra Edina Alves Batista. Reinaldo não economizou palavras. Em suas redes sociais, classificou o ato como “nojento, lamentável e vergonhoso” e desabafou: “Ninguém sai de casa pra trabalhar, ganhar o pão de cada dia, representar um time e uma torcida, pra tomar uma cusparada na cara.”

O Santos identificou o torcedor (associado do clube), abriu sindicância, repudiou publicamente a atitude, afirmou que tomará as providências cabíveis e já registrou Boletim de Ocorrência na Polícia.

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) já denunciou o clube com base no artigo 213 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata da responsabilidade por não prevenir ou reprimir desordens. O julgamento está marcado, e as penas possíveis incluem multa e perda de até dez mandos de campo.

Cuspir em alguém, especialmente no rosto de um profissional em plena atividade, é uma das formas mais humilhantes e degradantes de agressão.

Vai além de xingamentos ou lançamento de objetos. Trata-se de um gesto de desprezo físico e simbólico, anti-higiênico e profundamente ofensivo.

Em estádios, a paixão e a rivalidade fazem parte do espetáculo, mas há limites claros. Quando esses limites são ultrapassados, o ambiente esportivo deixa de ser um espaço de disputa legítima e se transforma em cenário de hostilidade pessoal.

A responsabilidade do clube mandante existe justamente porque o regulamento exige medidas de prevenção e controle.
Mesmo sendo um ato isolado, a ocorrência evidencia falha no ambiente e reforça a necessidade de identificação rápida e punição individual efetiva.

A reação foi praticamente unânime de condenação.

Jornalistas, comentaristas, torcedores de outros clubes e até contas ligadas ao próprio Santos chamaram o episódio de inaceitável, abominável e vergonhoso.

Não houve defesa relevante do ato. Pelo contrário: a identificação rápida do agressor pelo clube foi vista como um ponto positivo, capaz de atenuar eventuais sanções coletivas. O consenso é claro — rivalidade não justifica humilhação.

Vale destacar que casos como esse não são exclusivos do futebol brasileiro nem de 2026. No Brasil, já houve cusparada de torcedor do Palmeiras no técnico Tite (então no Flamengo) em 2024, gerando discussão sobre perda de mando de campo.
Jogadores também já foram alvos e, em alguns casos, reagiram.

No cenário internacional, o episódio mais famoso permanece a cusparada de Frank Rijkaard em Rudi Völler na Copa do Mundo de 1990. Outros nomes como El Hadji Diouf, Patrick Vieira, Francesco Totti e José Luis Chilavert também se envolveram em situações semelhantes, seja contra adversários ou torcedores.

O fato de não ser inédito, porém, não diminui a gravidade. Apenas mostra que o problema é recorrente e exige respostas consistentes: identificação facial, proibição de entrada em estádios e punições individuais pesadas. Somente assim se reduz a chance de novos episódios.

O futebol vive de emoção, mas não pode conviver com gestos de desprezo que humilham profissionais e mancham a imagem dos clubes. A resposta do Santos — identificação e repúdio — e a atuação do STJD são caminhos necessários.

O torcedor que cruza a linha precisa entender que sua atitude isolada pode prejudicar milhares de pessoas de bem que frequentam os estádios.

Que este episódio sirva de lembrete: paixão pelo time não é licença para desrespeito. O gramado e as arquibancadas merecem mais civilidade.

Até a próxima.

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