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Reinaldo Polito

Por que os economistas erraram 95% das previsões?

Foram analisadas 20 previsões para Ibovespa, Selic, PIB, dólar e inflação, e apenas uma foi classificada como correta

Reinaldo Polito

previsões economicas
Segundo levantamento do UOL, o mercado errou 95% das previsões econômicas analisadas entre 2021 e 2024 Jakub Żerdzicki/Unsplash

Há pouco tempo, escrevi sobre as possíveis consequências para o Brasil de uma mudança nas taxas de juros dos Estados Unidos. Um leitor reagiu apresentando um dado desconcertante: segundo levantamento do UOL, o mercado errou 95% das previsões econômicas analisadas entre 2021 e 2024.

Como acreditar nos economistas diante de um resultado desses? Para que servem essas bolas de cristal se quase nunca acertam? O número assusta. Foram analisadas 20 previsões para Ibovespa, Selic, PIB, dólar e inflação. Apenas uma foi classificada como correta: em 2022, a maioria previa o Ibovespa abaixo de 120 mil pontos, e ele encerrou o ano em 109.735.

O que significam esses 95%

Antes de condenar os economistas à inutilidade, entretanto, convém entender o que significa esse índice. Em 2023, por exemplo, a Selic foi estimada em 11,75% e terminou em 12,25%. Errou. Em 2022, esperava-se o dólar a R$ 5,60 e ele fechou em R$ 5,27. Errou também.

Ou seja, dizer que 95% das previsões erraram não significa que ficaram 95% distantes da realidade. Significa que, pelo critério adotado no levantamento, 19 das 20 não chegaram ao resultado previsto. A constatação continua sendo impressionante, mas seu significado é bem diferente.

Um professor sincero

Eu me formei em Economia há mais de meio século. Essa história de previsões equivocadas me acompanha desde os primeiros anos do curso. Em uma das aulas, o professor de econometria disse algo que nunca esqueci: preparem-se para ser censurados pelos erros que cometerão como economistas.

Fez uma pausa e explicou que a Economia não é uma ciência exata. Depende de tantas variáveis, muitas delas imprevisíveis, que acertar determinados prognósticos seria quase surpreendente. Portanto, deveríamos estar preparados não apenas para errar, mas para entender por que havíamos errado.

Na prática funcionava

No início da carreira, trabalhei no departamento de análise estatística e econométrica do Instituto de Economia Agrícola, da então Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Fazíamos projeções da produção agrícola para todo o estado, e os números chegavam bastante próximos da realidade.

Quando o assunto migrava para outras áreas, entretanto, a dificuldade aumentava. Inflação, juros, PIB, câmbio, dívida externa. Quanto maior o número de variáveis e de decisões humanas envolvidas, mais frágil se tornava a previsão.

Previsão não é profecia

Uma projeção econômica é construída com informações disponíveis naquele momento e com hipóteses sobre o comportamento de diversas variáveis. A velha expressão ceteris paribus, “mantidas as demais condições”, ajuda a entender a lógica, embora os modelos não suponham literalmente que tudo permanecerá constante.

O problema é justamente este: as condições mudam. Entre 2021 e 2024 houve efeitos da pandemia, guerra na Ucrânia, choques de oferta, inflação mundial, alterações fiscais e políticas e eventos climáticos. Alguns desses fatores eram conhecidos. O que não se conhecia necessariamente era sua intensidade, duração ou combinação com os demais.

Premissas equivocadas

E não são apenas os imprevistos que explicam os erros. As próprias premissas podem estar equivocadas. Os modelos utilizam relações observadas no passado, e os economistas atribuem pesos diferentes às variáveis conforme sua interpretação da realidade.

Nassim Taleb, em A lógica do Cisne Negro, acrescenta outra advertência: acontecimentos raros e difíceis de prever podem produzir consequências desproporcionalmente grandes. Quanto mais complexo o sistema, maior o cuidado necessário com a confiança depositada em uma previsão pontual.

Então, para que servem as previsões?

Servem para orientar decisões, desde que sejam tratadas como aquilo que realmente são: estimativas sujeitas a revisão. Em vez de construir um plano baseado apenas na afirmação “o dólar estará a R$ 5,00”, uma empresa prudente trabalha com cenários. O que acontecerá se estiver a R$ 5,00? E a R$ 5,80? E a R$ 6,50? Qual será o impacto sobre custos, preços, investimentos e endividamento? 

A boa decisão não é aquela que depende de o economista acertar na mosca. É a que continua razoavelmente segura mesmo quando o cenário central não se confirma. Talvez esteja aí a principal lição daqueles 95%. O número não demonstra que previsões econômicas sejam inúteis. Mostra o risco de transformá-las em certezas. Elas precisam ser acompanhadas, atualizadas e confrontadas permanentemente com a realidade.

Meu professor tinha razão. O economista precisa estar preparado para explicar por que errou. Eu acrescentaria, tantos anos depois, que também precisa saber corrigir rapidamente a rota quando as premissas mudarem. A previsão pode até partir do ceteris paribus. A realidade, não. Siga pelo Instagram: @polito

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