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Quem foi Maria Quitéria: a primeira mulher a lutar no Exército brasileiro pela Independência

A baiana contrariou a família, adotou uma identidade masculina para combater as tropas portuguesas e recebeu a maior honraria militar das mãos de Dom Pedro I

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Maria Quitéria de Jesus rompeu todas as convenções do século 19 Divulgação

Maria Quitéria de Jesus rompeu todas as convenções do século 19 ao se disfarçar de homem para lutar na Guerra da Independência do Brasil. Nascida no interior da Bahia, ela fugiu de casa em 1822, vestiu a farda do cunhado e adotou o nome de Soldado Medeiros para conseguir ingressar nas fileiras que combatiam a resistência portuguesa no Recôncavo Baiano. O ineditismo de sua atitude fez dela a primeira mulher a assentar praça em uma unidade militar das Forças Armadas no país.

Compreender a trajetória dessa combatente é essencial para resgatar a participação ativa do povo nos conflitos que garantiram a separação definitiva entre Brasil e Portugal. Diferente da narrativa pacífica muitas vezes associada ao grito do Ipiranga, a consolidação do território nacional exigiu derramamento de sangue em diversas províncias. A atuação incisiva da baiana nos campos de batalha forçou a coroa a reconhecer sua bravura, garantindo a ela um espaço na história oficial, ainda que as Forças Armadas tenham demorado mais de um século para incorporar mulheres de forma regular.

A origem da combatente e a criação do Soldado Medeiros

Nascida em 1792, na fazenda Serra da Agulha, região que hoje pertence ao município de Feira de Santana, Maria Quitéria cresceu em um ambiente rural que moldou suas habilidades práticas. Sem acesso à educação formal, ela desenvolveu desde cedo destreza na montaria, na caça e no manejo de armas de fogo, características incomuns e até desencorajadas para as mulheres daquela época.

O cenário mudou drasticamente a partir de 1822, quando emissários do governo provisório começaram a percorrer as fazendas baianas em busca de voluntários e apoio financeiro para expulsar as tropas portuguesas leais às Cortes de Lisboa. Motivada pelos discursos de libertação, a jovem pediu permissão ao pai, o viúvo Gonçalo Alves de Almeida, para se juntar à causa. Diante da recusa paterna imediata, ela tomou a decisão que mudaria o rumo de sua vida.

Com a ajuda de uma irmã, Maria Quitéria cortou os cabelos, apropriou-se do fardamento do cunhado, José Cordeiro de Medeiros, e fugiu para a Vila de Cachoeira. Lá, sob a identidade falsa de Soldado Medeiros, conseguiu ser aceita no Regimento de Artilharia. Pouco tempo depois, devido à sua precisão com os armamentos, foi transferida para a infantaria do Batalhão de Voluntários do Príncipe Dom Pedro, grupamento que ficou popularmente conhecido como Batalhão dos Periquitos por causa dos detalhes verdes nos uniformes.

O desempenho nas trincheiras e a revelação do disfarce

A farsa durou apenas algumas semanas. O pai da combatente descobriu seu paradeiro e foi até o acampamento militar exigir que a filha retornasse para casa. No entanto, o desempenho de Maria Quitéria já havia impressionado seus superiores. O comandante do batalhão, major José Antônio da Silva Castro, intercedeu a favor da jovem e recusou o pedido de desligamento, argumentando que a disciplina e a habilidade militar da soldada eram indispensáveis para a tropa.

A partir daquele momento, a identidade feminina foi assumida publicamente, e o governo provisório providenciou a confecção de saiotes para que ela pudesse acoplar ao fardamento masculino. A aceitação de uma mulher nas trincheiras não ocorreu por um ideal de igualdade de gênero, mas sim por uma necessidade tática urgente. O exército baiano estava em formação e precisava de atiradores experientes para conter o avanço dos soldados portugueses bem treinados.

A atuação de Maria Quitéria foi decisiva em diversos confrontos diretos que marcaram a guerra na Bahia. Os registros históricos confirmam sua presença ativa nas batalhas da Pituba, de Itapuã, da Ilha da Maré e, principalmente, no combate na Foz do Rio Paraguaçu. Em um dos episódios mais célebres, ela invadiu uma trincheira inimiga, rendeu um grupo de soldados portugueses e os escoltou sozinha até o acampamento brasileiro, consolidando sua reputação de destemor entre os veteranos.

O reconhecimento imperial e as honrarias póstumas

Com a expulsão definitiva das forças portuguesas em 2 de julho de 1823, data que marca a Independência da Bahia, a combatente marchou vitoriosa pelas ruas de Salvador. Sua fama de heroína de guerra ultrapassou as fronteiras da província e chegou à capital do Império. No mês seguinte, ela viajou ao Rio de Janeiro e foi recebida com honras militares pelo imperador Dom Pedro I, que fez questão de condecorá-la pessoalmente.

A baiana recebeu a insígnia de Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro, uma das mais altas comendas do recém-criado Estado brasileiro, destinada a agraciar aqueles que prestaram serviços excepcionais à nação. Além da medalha, o imperador concedeu a ela um soldo vitalício equivalente à patente de alferes e escreveu uma carta pedindo que o pai da militar perdoasse a desobediência que motivou sua fuga de casa.

Apesar do reconhecimento oficial em vida, Maria Quitéria morreu no anonimato em 1853, aos 61 anos, na cidade de Salvador. Seu nome só voltou a ganhar força institucional mais de um século depois. Em 1996, um decreto presidencial a consagrou como Patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Mais tarde, em 2018, uma lei federal determinou a inclusão de seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, eternizando sua contribuição no panteão cívico nacional.

Dúvidas frequentes sobre a trajetória militar de Maria Quitéria

Como Maria Quitéria conseguiu entrar no Exército brasileiro?

Ela cortou os cabelos, pegou as roupas emprestadas de seu cunhado e apresentou-se aos postos de recrutamento na Vila de Cachoeira, na Bahia, utilizando o nome falso de Soldado Medeiros.

Em quais batalhas da Independência a baiana lutou?

A militar participou ativamente dos combates na província da Bahia entre 1822 e 1823, com destaque para a defesa da Ilha da Maré e as batalhas da Pituba, de Itapuã e na Foz do Rio Paraguaçu.

O que aconteceu com Maria Quitéria após o fim da guerra?

Ela foi condecorada no Rio de Janeiro por Dom Pedro I, recebeu uma pensão vitalícia e retornou à Bahia. Casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, teve uma filha e viveu o resto de seus dias longe da vida pública.

Por que ela é considerada uma heroína da pátria?

O pioneirismo de lutar nas trincheiras e garantir a soberania nacional fez dela um símbolo de coragem. Desde 2018, seu nome está gravado no Livro de Aço, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília.

O resgate histórico da primeira mulher a vestir uma farda no Brasil não apenas corrige um apagamento secular, mas também dimensiona o esforço coletivo que forjou a independência do país. A audácia de Maria Quitéria prova que a formação do território nacional contou com a força de brasileiras que, mesmo à margem das leis e dos costumes de sua época, decidiram tomar as rédeas da própria história para defender a nação.

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