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Eliseu Caetano

The Economist critica eleição e vê risco de polarização e estagnação no Brasil

Revista britânica chama Lula de “esquerdista cambaleante”, Flávio Bolsonaro de “nepo-baby vingativo” e faz um alerta sobre dívida, gastos públicos, corrupção e o futuro da maior economia da América Latina

Eliseu Caetano

O presidente do Brasil e candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, acena durante um comício no estádio municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, estado de São Paulo, Brasil, em 16 de agosto de 2026
O presidente do Brasil e candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, acena durante um comício no estádio municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, estado de São Paulo, Brasil, em 16 de agosto de 2026. Os brasileiros irão às urnas em 4 de outubro, mais uma vez profundamente polarizados e sob a sombra do presidente dos EUA, Donald Trump, que apoiou candidatos conservadores em eleições recentes na América Latina. (Foto de NELSON ALMEIDA / AFP) NELSON ALMEIDA / AFP

A The Economist voltou os olhos para o Brasil e não economizou nas críticas. Em uma extensa análise sobre a corrida presidencial, a revista britânica traça um cenário preocupante para o país e afirma que a maior economia da América Latina caminha para “mais polarização e estagnação, ou algo pior”.

Lula e Flávio Bolsonaro, os dois principais nomes da disputa, estão no centro das críticas. O tom começa pelo título escolhido pela própria The Economist: “O próximo presidente do Brasil será ou um ‘nepo-baby vingativo’ ou um ‘esquerdista cambaleante’”.

O “nepo-baby vingativo” é Flávio Bolsonaro. O “esquerdista cambaleante” é Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas a crítica da publicação vai muito além dos candidatos. O diagnóstico apresentado pela revista é de um país com enormes riquezas e oportunidades, mas que continua incapaz de transformar todo esse potencial em crescimento sustentado.

A The Economist destaca as reservas de petróleo, a força do agronegócio, a abundância de energia, os minerais estratégicos, a Amazônia e o tamanho do mercado brasileiro. O problema, segundo a publicação, é que o Brasil vem ficando para trás.

Lula: idade avançada, gastos e poucas reformas

Ao falar de Lula, a The Economist reconhece pontos positivos. A revista destaca sua defesa da democracia e sua posição em relação à proteção ambiental. Depois disso, as críticas aumentam.

A publicação chama atenção para o fato de Lula estar prestes a completar 81 anos e faz uma comparação direta com Joe Biden. O ex-presidente americano tinha a mesma idade quando abandonou a disputa pela reeleição nos Estados Unidos em 2024.

Na economia, o diagnóstico é ainda mais duro. Segundo a The Economist, Lula fez pouco para liberar o potencial de crescimento brasileiro ou conter o aumento dos gastos públicos.

A revista afirma ainda que o governo avançou pouco em grandes reformas econômicas, destacando como exceção a simplificação dos impostos sobre o consumo. Outro sinal de alerta está na dívida pública. Segundo a publicação, o governo caminha para terminar o mandato com a maior conta de juros da dívida em 25 anos.

Flávio Bolsonaro: urnas, clima e o peso do pai

Se Lula recebe críticas pesadas, Flávio Bolsonaro também não é poupado. A The Economist chama atenção para as posições do senador sobre as mudanças climáticas e o sistema eleitoral brasileiro.

Segundo a publicação, Flávio questiona a responsabilidade humana pelas mudanças climáticas e levanta dúvidas sobre a integridade das urnas eletrônicas. A revista também relembra investigações anteriores envolvendo o senador e acusações sobre supostas ligações com criminosos violentos, alegações que ele nega.

E o peso de Jair Bolsonaro aparece como elemento central da análise. Para a The Economist, a candidatura de Flávio está profundamente ligada ao legado político e à situação jurídica do pai. A revista destaca a defesa de um perdão ao ex-presidente entre as principais bandeiras associadas à candidatura.

É nesse contexto que a publicação escolhe a expressão “nepo-baby vingativo” para definir Flávio Bolsonaro.

O problema, segundo a The Economist, é maior que Lula e Bolsonaro

A revista argumenta que trocar apenas o nome no Palácio do Planalto não resolve os problemas estruturais brasileiros. Dois deles recebem destaque: corrupção e gastos públicos.

A The Economist sustenta que nenhum dos dois principais candidatos apresenta uma resposta convincente para enfrentar essas questões.

Um dado chama especialmente a atenção na reportagem: cerca de 92% dos gastos do governo brasileiro seriam determinados por leis ou pela Constituição. Na prática, segundo a análise, sobra pouco espaço para qualquer governo cortar despesas e reorganizar as contas públicas.

E a conta pode ficar cada vez mais pesada. A revista alerta que o crescimento da dívida pode manter os juros elevados, encarecer o crédito e retirar dinheiro de investimentos que poderiam aumentar a produtividade e fazer a economia crescer.

Em um cenário mais grave, a The Economist descreve o risco de um círculo vicioso: dívida maior, custos de financiamento mais altos, pressão sobre o real, inflação e recessão.

Banco Master e a desconfiança nas instituições

A crise envolvendo o Banco Master também entra na análise. A The Economist aborda as investigações envolvendo Daniel Vorcaro e as conexões reveladas entre personagens do caso e integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Para a revista, episódios como esse alimentam o cinismo e aumentam a desconfiança dos brasileiros em relação às instituições.

Ainda assim, a publicação faz uma ressalva importante: nem tudo está quebrado. A The Economist destaca a atuação da Polícia Federal, a existência de uma imprensa independente e a reputação internacional da diplomacia brasileira como exemplos de instituições que continuam funcionando.

Um país pronto para decolar, mas que continua na pista

É no final que a revista usa uma das imagens mais fortes da análise.

A The Economist lembra Brasília, construída na década de 1950 como símbolo de um Brasil moderno e ambicioso. Vista de cima, a capital é frequentemente associada ao desenho de um avião.

Era a imagem de um país pronto para decolar.

O Brasil continua tendo petróleo, alimentos, energia, minerais, recursos naturais, uma enorme população e algumas das maiores oportunidades econômicas do mundo.

Mas, depois de décadas de promessas de que o país finalmente realizaria todo o seu potencial, o diagnóstico da The Economist é provocador.

O avião ainda não decolou.

O Brasil continua na pista.

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