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Davis Alves

Como o setor de TI pode ser impactado com as taxas de 50% impostas pelos EUA?

Influenciadores, startups e empresas de tecnologia brasileiras podem perder até 50% da receita com as novas tarifas EUA-Brasil; veja os possíveis 15 impactos no Setor de TI

Davis Alves

O presidente dos EUA, Donald Trump, responde a perguntas de jornalistas ao sair do Pórtico Sul da Casa Branca para embarcar no helicóptero Marine One, no gramado sul, em Washington, DC
US President and First Lady depart the White House for Kerrville, Texas Samuel Corum/Pool/EFE/EPA

A medida anunciada em 9 de julho de 2025, que estabelece uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA, com vigência a partir de 1º de agosto, criou um clima de tensão no comércio bilateral. Além do impacto direto nas exportações, o Brasil reagiu com sua Lei de Reciprocidade Econômica, abrindo espaço para contra-medidas que afetam tanto importadores quanto consumidores de produtos e serviços americanos no Brasil. Todo esse cenário pode também impactar empresas e profissionais do Setor da Tecnologia da Informação (TI) principalmente do Brasil.

Desse modo, confira a seguir os 15 possíveis impactos nos produtos e serviços:

  1. Tarifas sobre serviços digitais

  • A investigação via Section 301 pode resultar em taxação de SaaS e APIs brasileiras nos EUA.
  • Exemplo: Um ERP ou qualquer outro software brasileiro vendido nos EUA pode sofrer cobrança de até 50% adicional.
  1. Aumento de custos em infraestrutura de nuvem

  • Tarifa recai também sobre hardware utilizado pelas Big Techs, impactando os preços.
  • Exemplo: Faturas de AWS/Azure podem subir entre 5–10% para startups brasileiras.
  1. Falhas na cadeia nacional de suprimentos devido à reciprocidade

  • Incertezas em importação de hardware podem atrasar lançamentos nos data centers.
  • Exemplo: Migração para nova região da Azure pode ser adiada por falta de servidores.
  1. Queda na demanda por migrações ou serviços digitais

  • Setores impactados por tarifas (agro, indústria) tendem a frear projetos de TI.
  • Exemplo: Fábrica cancela migração para a nuvem devido ao aumento de custos.
  1. Migração para regiões neutras e soberania de dados

  • Para mitigar riscos, empresas podem optar por hospedar dados em regiões fora dos EUA (Europa, América Latina), embora isso aumente latência e custo de transferência.
  • Exemplo: um ecommerce migra sua hospedagem para um data center em Lisboa ou Santiago, em vez de São Paulo.
  1. Complexidade contratual aumentada

  • Contratos estarão sujeitos a cláusulas tarifárias e hedge cambial.
  • Exemplo: Suporte anual da AWS deve incluir revisão automática em caso de tarifa.
  1. Retaliação recíproca via reciprocidade

  • O Brasil pode impor tarifas de 50% sobre importações americanas de SaaS, hardware e plataformas.
  • Exemplo: Office 365, produtos AWS, Azure e Salesforce podem ficar mais caros no Brasil 
  1. Aumento de custos para empresas brasileiras que usam serviços dos EUA

  • Empresas brasileiras que contratam softwares, plataformas e serviços digitais americanos podem pagar mais caro devido à possível aplicação de tarifas de reciprocidade no Brasil.
  • Isso vale tanto para ferramentas de gestão, marketing, CRM quanto para serviços de nuvem.
  • Exemplo: Uma clínica médica que usa o sistema de agendamento online da empresa americana Calendly pode ver seu custo anual subir significativamente caso esse serviço passe a ser tarifado no Brasil.
  1. Redução da competitividade da TI nacional

  • Startups brasileiras ficam em desvantagem operacional frente a concorrentes americanos.
  • Exemplo: SaaS brasileiro perde clientes nos EUA por aumento de preço via tarifa.
  1. Pressão por soberania de dados e compliance

  • Com tarifas e riscos regulatórios, cresce a demanda por soluções locais.
  • Exemplo: Companhias migram dados para nuvens locais ou sank multicloud para evitar restrições.
  1. Redução na contratação por empresas americanas

  • Com tarifas e instabilidade, empresas dos EUA podem evitar contratar profissionais brasileiros.
  • A preferência pode migrar para profissionais de países sem barreiras comerciais.
  • Exemplo: Um programador full-stack brasileiro deixa de fechar um contrato com uma empresa americana que opta por um profissional colombiano para evitar riscos legais.
  1. Queda nas oportunidades de exportação de serviços

  • Freelancers e pequenas consultorias de TI que prestam serviços para o exterior tendem a perder clientes.
  • Plataformas internacionais podem restringir a oferta de serviços vindos do Brasil.
  • Exemplo: Uma empresa de UX/UI brasileira tem seus preços desvalorizados nos EUA devido à tarifa imposta, perdendo projetos de interface para concorrentes asiáticos.
  1. Pressão para requalificação e adaptação geopolítica

  • Profissionais precisarão entender sobre soberania digital, redes híbridas e compliance regional.
  • A formação técnica será acompanhada por uma nova demanda em soft skills geopolíticas.
  • Exemplo: Um arquiteto de soluções, ou Data Protection Officer (DPO) precisa aprender sobre GDPR, LPDP, PIPEDA, Cloud Act e estratégias de diversificação multirregional para manter a empregabilidade.
  1. Maior complexidade em projetos internacionais

  • Projetos envolvendo infraestrutura e serviços nos EUA terão planejamento mais sensível.
  • Profissionais de TI terão que incluir análises fiscais, tarifárias e cambiais em propostas técnicas.
  • Exemplo: Um engenheiro de dados é obrigado a redesenhar a arquitetura de um pipeline por conta do impacto da tarifa no armazenamento em nuvem americano.
  1. Dificuldade em acessar cursos, ferramentas e certificações

  • Plataformas americanas de ensino e licenças podem repassar custos tarifários a usuários brasileiros.
  • A capacitação técnica pode se tornar mais cara ou limitada.
  • Exemplo: Um profissional de cibersegurança vê o valor do curso oficial da CompTIA aumentar 40% no Brasil por conta das novas tarifas recíprocas e variação cambial.

Especialista responde:

Para Michel Souza, Gerente de Marketing da Associação Nacional dos Profissionais de Privacidade de Dados (APDADOS), o maior impacto das taxas nos serviços digitais, pode ser dar pela diminuição dos valores repassados pelas redes sociais aos influenciadores e empresas que dependem da monetização dessas plataformas. Isso pode desencadear três caminhos:

a) Limitação algorítmica

  • As plataformas podem reduzir a visibilidade global dos conteúdos brasileiros, especialmente nos Estados Unidos.
  • Isso ocorre como forma de evitar exposição financeira a criadores que gerariam custos extras devido à tarifação.

Exemplo: Um influenciador ou empresa com bom desempenho no Brasil vê suas visualizações caírem nos EUA porque o algoritmo do YouTube prioriza criadores de países sem barreiras comerciais.

b) Corte nos repasses financeiros

  • Com o aumento da carga tarifária sobre plataformas, as Big Techs podem optar por reduzir o valor repassado por visualização, engajamento ou monetização.
  • Isso afeta diretamente o CPM (custo por mil impressões) e os ganhos diretos e indiretos com anúncios.

Exemplo: Um vídeo que antes gerava R$ 10 a cada mil visualizações, passa a gerar R$ 6, impactando a receita mensal do criador.

c) Retenção tarifária local por reciprocidade

  • O governo brasileiro pode aplicar tarifas de 50% sobre o valor recebido por criadores brasileiros, como forma de retaliação à medida dos EUA.
  • Essa retenção seria aplicada ao pagamento vindo de empresas americanas, reduzindo drasticamente a receita líquida.

Exemplo: Um criador que recebe US$ 10 mil mensais do YouTube passa a receber apenas US$ 5 mil, após retenção de tarifa de reciprocidade imposta no Brasil.

A tarifa de 50% imposta pelos EUA, somada às contra-medidas previstas pela Lei de Reciprocidade do Brasil, provocam um efeito cascata que atinge desde exportadores de TI até consumidores finais de softwares e serviços americanos no Brasil. Os efeitos incluem aumento de custos, atrasos, revisão contratual e deslocamento estratégico de infraestruturas.

Para enfrentar esse cenário turbulento, empresas e profissionais de TI devem adotar contratos robustos, diversificação de provedores, planejamento geográfico estratégico e busca por soberania digital. Quer se aprofundar no assunto, tem alguma dúvida, comentário ou quer compartilhar sua experiência nesse tema? Escreva para mim no Instagram: @davisalvesphd.

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