Agora como terceira via, o sobrenome Kennedy assusta favoritos nos EUA
O advogado e escritor Robert F. Kennedy é mestre falcoeiro. Treina e cria falcões. Um dos 11 filhos de Bob Kennedy, recoloca o sobrenome do clã na corrida pela Casa Branca, o que não ocorria desde 1980, quando o tio Ted decidiu desafiar o incumbente Jimmy Carter nas primárias do Partido Democrata. Derrotado, saiu da convenção partidária ovacionado após um belo discurso e mergulhou na campanha de Carter. O Kennedy versão 2024 pretende trilhar outro caminho. E há pesquisas que atribuem a ele perto de 20% das preferências, o que pode se tornar um imenso problema para Joe Biden e Donald Trump, os favoritos da disputa.
Diferente do tio John, eleito presidente em 1960, do pai Robert, que tentava a nomeação em 1968 até ser baleado e morto no Hotel Ambassador, em Los Angeles, e do tio Ted, o novo Kennedy presidenciável abandonou o Partido Democrata. Aliás, a defecção não surpreendeu. Durante a pandemia, o advogado se aliou a grupos terraplanistas que atacavam as vacinas contra a Covid. Militante aguerrido da causa, criou uma organização chamada Children’s Health Defence, que se dedicou a difundir desinformação sobre a vacina e teorias da conspiração que tinham como alvo a indústria farmacêutica. E para não deixar dúvida sobre a capacidade de radicalizar em defesa de teses no mínimo inescrupulosas, chegou a dizer que a Covid foi geneticamente modificada para poupar chineses e judeus. Foi um aceno direto, e de gosto bem duvidoso, ao eleitorado mais conservador, identificado como cativo do ex-presidente Donald Trump.
Óbvio que o núcleo duro que gravita em torno do republicano não perdeu tempo e rapidamente saiu a campo para neutralizar a tentativa de Kennedy de se mostrar como um neoconservador da gema. “É apenas um democrata radical de extrema esquerda”, respondeu o Comitê Nacional Republicano. Ou como definiu o próprio Donald Trump, “é um progressista desfilando em roupas conservadoras”. Beira a utopia imaginar que um outsider possa desafiar com chances reais de êxito as poderosas máquinas partidárias dos partidos Democrata e Republicano. Para se ter uma ideia do tamanho do desafio de RFK, a última vez em que os candidatos democratas e republicanos não foram os mais votados foi na eleição de 1912. Naquele pleito, o segundo colocado, com 27,4% dos votos e vitórias em seis Estados, foi Theodore Roosevelt, então no recém-criado Partido Progressista. Mas é fundamental lembrar que Roosevelt era um gigante da política americana, tendo sido presidente em dois mandatos consecutivos, de 1901 a 1908.
Outro nome marcante da terceira via foi o ultraconservador segregacionista George Wallace. O célebre governador do Alabama foi o último candidato fora das duas grandes máquinas partidárias a vencer em alguns Estados. Amealhou 13,5% dos votos populares e 46 no colégio eleitoral, graças às vitórias em Arkansas, Lousiania, Mississípi, Alabama e Geórgia. E o último outsider a fazer algum barulho foi o bilionário Ross Perot, que em 1992 obteve 18,9% e cerca de 19 milhões de votos. Até hoje há republicanos capazes de jurar que ele contribuiu para a vitória do então desconhecido democrata Bill Clinton sobre o presidente George Bush, que tentava a reeleição.
Ninguém acredita que RFK possa vencer. A questão é o quanto poderá interferir nos resultados de estados-pêndulos, como Michigan, Pensilvânia, Arizona e Geórgia, entre outros. Neles, a diferença entre republicanos e democratas tem sido de menos de 1%. E, nesse caso, restaria a dúvida sobre quem perderia mais com a candidatura Kennedy, que para os favoritos seria uma ave de rapina com potencial para provocar severos prejuízos.
[jp-related-posts ids=”1506123″]
Assuntos
continue lendo
Mundo
EUA afundam 3ª barco de supostos traficantes em frente ao Equador em uma semana
Governo de Donald Trump realizou operações contra supostas lanchas de narcotraficantes no Pacífico e no Caribe, com bombardeios que deixaram mais de 200 mortos
- Na era dos falsos paradoxos, crescer é ruim e certo está quem erra Fábio Piperno · há 2 anos
- Eleição coloca mitos e presidenciáveis em xeque Fábio Piperno · há 2 anos
- Pablo Marçal é fogo de palha ou incendiará a direita? Fábio Piperno · há 2 anos
- Fim da campanha na TV desafia o prefeito Fábio Piperno · há 2 anos